Opinião nos tempos do tribunal do diploma – Marcelo Vasconcelo

Opinião é diferente de Conhecimento

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Há uns dias atrás escrevi sobre esse assunto ousando discordar de um grande guru pop, Leandro Karnal, só ousei tal coisa por que se tratava de mera opinião o que, no fundo, não demanda comprovação científica para tanto. O assunto era justamente opinião, tão falada nos dias atuais seja por quem a defende seja por quem a condena.

O que ocorre atualmente é uma resistência ao posicionamento do próximo, condenação de qualquer expressão de ponto de vista por parte de quem tem discordância. Isso leva uma parcela de pessoas a condenar a opinião dada sobre o que quer que seja, muitas vezes suscita-se a falta de conhecimento profissional no assunto, o que desprestigiaria qualquer pronunciamento.

Chamo de tribunais diplomados porque na maioria dos casos quem repudia a opinião alheia é gente que se acha dona de todo o saber e de toda ciência terrestre. Há quatro dias, a rádio Jovem Pan entrevistou o humorista Rafinha Bastos. No decorrer da entrevista o “âncora” do programa, Emílio, levantou uma questão que esquentou o papo. Ele afirma que as pessoas não deveriam dar opinião naquilo que não conhecem (do ponto de vista técnico/profissional).

Mais uma vez discordo desse entendimento, pois as pessoas confundem conhecimento profissional com opinião. Como argumento, Emílio dá um exemplo de um piloto de avião que pergunta à tripulação qual pista ele deveria pousar a aeronave, dentre três opções. Ora! Não me parece um exemplo coerente! Volto a frisar que opinião é fruto de uma reflexão íntima sobre algo, é a exposição de uma percepção intuitiva que leva em consideração elementos contidos no assunto que se aborda.

Opinar é externar uma visão subjetiva sobre certo assunto, não há qualquer exigência quer seja de cunho legal ou moral para se expressar. Há notável embaraço entre a distinção do que é discurso opinativo e expressão de conhecimento profissional.

A opinião é expressão da alma, o conhecimento profissional é expressão da ciência.

Quando alguém fala sobre um assunto que desconhece o ônus de passar vexame é dela, cabe a cada um decidir se quer ou não se manifestar sobre determinados assuntos. No entanto,  não se deve querer menosprezar ou retirar a oportunidade que as pessoas têm para se manifestarem. Essa coisa de tribunal do diploma é exatamente o viés de raciocínio que se extrai dos posicionamentos do notável Karnal. Este deixa claro, no meu entender, que quem opina em rede social, por exemplo, é um imbecil, já que usou uma frase de Humberto Eco que afirmava isso.

Nossa Constituição preconiza a liberdade de pensamento no inciso IV, do artigo 5° e de consciência no inciso VI do mesmo artigo. Ora! Caso alguém venha se exceder no seu ponto de vista e ofenda a honra ou imagem de alguém a própria Constituição traz o direito de resposta proporcional ao agravo, essa previsão está descrita no inciso V do mesmo artigo 5° da Constituição. Além do direito à indenização por danos morais ou materiais decorrentes do agravo sofrido.

Isto posto, vemos que há recursos legais para se socorrer caso alguém exagere na sua opinião e cause danos a outra pessoa, mas, isso independe de ser uma expressão subjetiva, ou seja, uma opinião pessoal, ou profissional.

Por outro lado, deve-se ter cuidado quando falamos em conhecimento profissional, neste caso sim, somente quem tem formação profissional é quem tem autorização, em termos de conhecimento, para falar algo. Neste caso o exemplo do Emílio do programa Jovem Pan cai perfeitamente. Como ele afirmou, caso fosse solicitado sobre em que pista o avião deveria aterrissar, sem dúvidas que somente profissionais habilitados poderiam responder, pois não se trata de opinião e sim de conhecimento técnico.

Como bem contrapôs o convidado do programa, naquela oportunidade, Rafinha Bastos, não dá pra alguém dizer eu acho que sei fazer uma cirurgia cardíaca, é óbvio que neste caso não é uma opinião que se solicita e sim, de uma atuação profissional. Enfermeiros não poderiam, por exemplo, chamar a recepcionista do hospital para dizer como fazer uma cirurgia cerebral ou cardíaca, pois não é de opinião que se precisa neste caso e sim de conhecimento profissional.

Essa coisa de emplacar um tribunal do diploma para desmerecer a opinião alheia é coisa de gente insegura, quando não intolerante com o pensamento alheio. Precisamos diferenciar opinião de conhecimento técnico, a primeira surge de uma sensibilidade extraída, em certos casos, do empirismo, de experiências vividas ou observadas ao passo que o último é decorrente de estudos e experiências científicas.

Portanto, deixem o povo falar livremente sem ser constrangido com a lembrança de que não tem diplomas e outras graduações mais imponentes. A opinião é expressão da alma, o conhecimento profissional é expressão da ciência.

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