Volume da nova safra de soja produzida no Brasil e nos EUA eleva os estoques globais

Com estoques recordes, a produção de soja do Brasil e dos Estados Unidos tem aumentado a cada ano. Em breve, o Brasil deverá se tornar o maior produtor.

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No início do mês de novembro, foram recalculadas as estimativas acerca da produção de soja para a safra atual e também a que está sendo plantada. De acordo com a Conab (Companhia Nacional do Abastecimento), a produção brasileira na safra de 2017/18 alcançou o volume de cerca de 119 milhões de toneladas. Por outro lado, dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês), indicaram que o volume da atual safra de soja norte-americana é de 125 milhões de toneladas.

Com essas informações, a grande preocupação para os produtores de soja é em relação ao aumento dos estoques nos Estados Unidos, que alcançaram um novo recorde, segundo a USDA. Mesmo que a safra 2018/19 siga a tendência de queda prevista pelo órgão, o país terá uma sobra de aproximadamente 26 milhões de toneladas. Esse número fará com que os estoques mundiais acumulem 112 milhões de toneladas, o equivalente a um terço do consumo global em um ano.

Guerra comercial entre China e EUA altera o panorama de exportações

O aumento das sobras na produção de soja norte-americana se deve, em parte, a queda no volume das exportações para a China, uma consequência da guerra comercial travada entre os dois países. A China, que é o maior mercado consumidor de soja do mundo, deverá reduzir em 6 milhões de toneladas o volume de grão que importará dos Estados Unidos na próxima safra.

Caso as diferenças econômicas entre os dois países não sejam resolvidas, a China já ameaçou aplicar uma taxa de 25% sobre os grãos exportados pelos norte-americanos. Recentemente, Donald Trump anunciou altas tributações sobre várias categorias de produtos chineses, o que agravou as divergências comerciais entre Pequim e Washington.

Paralelamente, as exportações de soja do Brasil para o mercado chinês deverão aumentar, com o intuito de tomar o espaço perdido pelos Estados Unidos na venda de grãos. Na safra de 2018/19, a produção brasileira provavelmente se manterá estável, em cerca de 120 milhões de toneladas. Desse volume total, cerca de 77 milhões serão vendidos para o mercado externo, com o restante sendo utilizado para o abastecimento interno.

<h2> Produção de soja no Brasil e nos Estados Unidos segue batendo recordes </h2>

Nos últimos anos, as produções de soja no Brasil e nos Estados Unidos, as duas maiores do mundo, tem avançado continuamente, e a estimativa é de que, muito em breve, o Brasil supere os norte-americanos e se torne o maior produtor do grão a nível global.

De acordo com André Nassar, que é o o presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), isso se deve pelo fato do Brasil estar expandindo a cada ano a sua área de cultivo de soja em cerca de 600 mil hectares, um avanço substancial e que não ocorre em igual proporção nos Estados Unidos. Em solo americano, existe uma competição acirrada entre as áreas de plantio de soja e as de milho, portanto, é possível acompanhar um clico de expansão e recuo na área total dedicada ao cultivo da soja no país.

Na safra 2017/18, os Estados Unidos atingiu um recorde em sua produção pois utilizou uma área de plantio maior. Porém, para a safra seguinte, a estimativa é de que a área dedicada ao cultivo da soja no país tenha uma redução de 1,45% em comparação ao ano anterior. Com isso, a área total será de cerca de 35,7 milhões de hectares, enquanto no Brasil, o espaço para o plantio de soja está em aproximadamente 35 milhões.

Brasil, uma potência no agronegócio

Apesar de ainda estar atrás dos Estados Unidos no volume total da produção, o Brasil já se tornou há alguns anos o maior exportador de soja do mundo, desbancando os norte-americanos. 

Ainda segundo André Nassar, os produtores de soja dos Estados Unidos já atingiram o seu potencial máximo, não havendo mais para onde se expandir no país. Por essa razão, o principal fator que define o volume da colheita do grão para eles é se o clima foi favorável ou não. No Brasil, por sua vez, a disponibilidade de terras que podem ser utilizadas na agricultura da soja é bem maior. 

Para o presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais, a grande vantagem do Brasil nesse sentido é por ter um imenso estoque de áreas abertas que serviram anteriormente para a pastagem de gado. Agora, essas áreas podem ser convertidas de forma relativamente fácil para o cultivo da soja, uma atividade que traz uma boa rentabilidade para os agricultores. O fato de serem áreas que já serviam como pasto também evita que mais hectares de floresta sejam desmatados com o propósito de expandir a produção do grão.
 
Sendo assim, enquanto o país ainda possuir esse excedente de terras úteis para a produção, a tendência natural é de que o Brasil aumente a sua safra em cerca de 2 milhões de toneladas ao ano. Em contrapartida, tudo indica que os Estados Unidos já atingiu o seu auge, e que o volume da produção norte-americana permanecerá estável de agora em diante.

O histórico brasileiro no cultivo da soja

Dados divulgados pela Aprosoja Brasil atestam que a produção de soja no país cresceu a impressionante marca de 273%, ao longo dos últimos 20 anos. Esse índice foi cinco vezes maior do que o crescimento obtido pelos produtores de soja norte-americanos, os quais apresentaram uma expansão de cerca de 56% nesse mesmo período.

Uma junção de fatores foi indispensável para que isso se tornasse possível. Em primeiro lugar, a infraestrutura de escoamento para a produção foi ampliada e melhorada, e além disso, o planejamento logístico para o cultivo da grão também passou por restruturações contínuas. Em segundo lugar, o Brasil possui como vantagem em relação aos outros países produtores o fato do seu período de cultivo ocorrer justamente durante a época da entressafra desses países. O câmbio atual entre o dólar americano e o real ainda oferece uma rentabilidade atrativa ao produtor, o que ajuda como estímulo ao crescimento da produção. 

Não por acaso, a soja é o principal produto exportado pelo Brasil atualmente, responsável por movimentar uma soma de cerca de US$ 36,5 bilhões, quando considerada a comercialização dos grãos e também do farelo e do óleo de soja. Em seguida, estão o açúcar, a carne bovina e de frango, o grão de café e o milho. Esses e os demais produtos agrícolas cultivados no Brasil são responsáveis por nada menos que 70% das exportações nacionais.

<h2> Impactos da futura liderança do Brasil na produção mundial de soja </h2>

Para Douglas Nakazone, que atua como sócio-analista da Agroconsult, o fato do Brasil ultrapassar os Estados Unidos e se tornar o maior produtor de soja do mundo não irá gerar nenhuma vantagem significativa. Pelo contrário, essa troca na liderança produtiva do grão pode inclusive trazer algumas inconveniências.

Segundo o analista, o que gerou uma mudança significa foi o Brasil ter superado os Estados Unidos como o maior exportador, o que ocorreu há algum tempo e se tornou cada vez mais concreto no passar dos anos. Com isso, o país passou a atuar como formador de preços da soja em âmbito global, alterando as estruturas do mercado e alcançando um status de relevância diferenciado. 

Contudo, essa alteração no ranking dos principais produtores não é precisamente positiva, tendo em vista que, a partir do momento em que o Brasil assumir a liderança, as variações cambiais da moeda nacional terão um poder maior de influência sobre os preços aplicados na Chicago Mercantile Exchange, que é referência global no valor de mercadorias.

De acordo com Douglas Nakazone, isso é um problema pois, normalmente, a desvalorizações do real frente ao dólar americano causa um movimento de alta nas cotações praticadas no mercado interno, o que como consequência, eleva os índices de rentabilidade dos agricultores de soja do país.

Entretanto, conforme o Brasil for alcançando mais influência como formador dos preços aplicados a nível internacional, as variações cambiais do real poderão pressionar as cotações da bolsa de Chicago, o que acabará amenizando essa vantagem, tendo em vista que, ao invés da alta rentabilidade, haveria um estímulo maior para que ocorra um escoamento mais elevado de soja no mercado global.

Sendo assim, apesar das vantagens econômicas iniciais, a condição de maior produtor de soja também traria impactos imprevisíveis a médio prazo, que poderiam colocar em risco a excelente rentabilidade da soja para os produtores nacionais, um dos fatores que mais estimulam a expansão dessa atividade no país.

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