Xenofobia: Olho por olho, morte por morte – Marcelo Vasconcelo

Xenofobia: Olho por olho, morte por morte
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A situação entre venezuelanos e brasileiros está cada vez mais crítica e voraz. Mês passado, em Pacaraima, logo depois de um comerciante da cidade ser violentamente espancado por venezuelanos, para roubá-lo, a população local, num gesto de revolta, destruiu os acampamentos de centenas de imigrantes e os expulsou da cidade. Na semana passada, (dia 06/09) em Boa Vista, mais um ato de enfrentamento entre imigrante e brasileiros foi noticiado em rede nacional. Desta vez, não foram somente atos de violência física que deram o tom de guerra entre os envolvidos, e sim, a triste consumação de dois homicídios, após uma sucessão de atitudes típicas de povos em desespero.

Após um comércio ser furtado por um venezuelano, como afirmam testemunhas, pessoas perseguiram o autor do furto aos gritos de “pega ladrão” pelas ruas. O primeiro que teria alcançado o suposto ladrão, o brasileiro Manoel Siqueira de Sousa, de 35 anos, foi golpeado no pescoço com uma faca pelo venezuelano. O brasileiro, Manoel, veio a falecer.

O imigrante teria furtado pães e latinhas de leite condensado, como relatou uma testemunha entrevistada pela BBC Brasil. Isso só mostra o grau de desespero e instinto de sobrevivência por parte de pessoas que estão em estado de verdadeira calamidade. É triste saber que alguém perdeu a vida por conta de tão pouco, morrer tentando conseguir algo pra se alimentar retrata o descalabro que os venezuelanos vivem, ao fugir do seu país.

Não quero justificar o suposto furto de alimentos, que no direito se enquadra como furto famélico, aquele praticado com o intuito de conseguir algo para se alimentar (sobreviver). Mas, é razoável imaginar que, instintivamente, o ser humano, assim como qualquer outro animal, pode cometer qualquer ato pra sobreviver, com a peculiaridade de roubar ou furtar.

O desfeche da perseguição não acabou somente com a morte do brasileiro, pois o venezuelano foi alcançado e linchado por várias pessoas, até sua morte. Isso mostra como nós brasileiros estamos descrentes da sensação de justiça, parece que voltamos ao código de Hamurabi, o qual preconizava olho por olho, dente por dente, como forma de confeccionar o sentido de justiça social. Assim, costura-se um ambiente de insurgência e violência entre esses atores, produzindo cenas horrendas de um filme de drama e terror.

Não bastasse sair de um país governado por um autoritário como Nicolás Maduro, os venezuelanos ingressam no Brasil, talvez, sem imaginar que estamos também passando por um dos piores momentos da nossa história. Vivemos um cenário caótico e sem norte que mexe com a cabeça do povo. Corrupção crônica, pobreza, desemprego, insegurança e medo fazem o brasileiro praticar a xenofobia (ódio a estrangeiros), expulsar, quebrar, violentar e até matar. Num país onde o governo perde o controle na regência da sociedade, ela própria dita as regras e promove barbáries.

Marcelo Vasconcelo – advogado

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