Quando Fausto era o filho pequeno do seu Antônio Bergocce, fazia de Reginópolis, sua terra natal, sua grande tela em branco. Já pendendo para as artes, Fausto fazia do carvão, a tinta preta; dos tijolos, a cor laranja; da terra, a cor marrom; da cal, a cor branca. Nas calçadas da cidade, fez seus primeiros desenhos, muitos deles retratando a própria Reginópolis. Não parou mais.
Passou por diversos veículos de comunicação (inclusive o “Diário de S.Paulo”, integrante da Rede BOM DIA na Capital), ganhou prêmios, reconhecimento. Deixou o carvão e o tijo lo para trás para usar aquarela, nanquim e outras técnicas.
Mas não esqueceu Reginópolis. Tanto que, na terça-feira, lança em Bauru “Reginópolis – Sua História”, livro no qual conta, com a ajuda do professor, jornalista e blogueiro bauruense Henrique Perazzi de Aquino, a história e as histórias da cidade.
Cada folhear de páginas é uma jornada de cores em aquarela, lugares, pessoas, lembranças. As placas, os cachorros, as mesas de bar, estão todos lá. Com eles, um pouco de Fausto também, menino que aprendeu a desenhar a vida ainda no chão da cidade.
Obra conta com ‘encantados’ da cidade
Houve tempo também para um final poético ao trabalho do reginopolense e do bauruense. Apropriando-se da máxima de Guimarães Rosa, que dizia que as pessoas não morriam, ficavam “encantadas”, Fausto e Henrique trouxeram diversos encantados ao livro.
“São famílias e pessoas importantes para a história de Reginópolis, mas que não tinham um capítulo para si na obra”, explica Fausto. Começamos com 30 encantados e, de repente, já tínhamos 64”, diverte-se Henrique. Entre eles, Antonio Bergocce, pai de Fausto, que viu o filho “sujar” as ruas da cidade com tijolo, carvão e arte. Deve estar, definitivamente, encantado mesmo.
Aquarelas foram ‘resgatadas’ da história oral da população
Fazer um livro sobre sua Reginópolis era o “projeto da vida”, como resume o cartunista Fausto Bergocce. Desde 2007, começou a ganhar forma, com fotos dos locais, conversas mais apuradas com moradores, os primeiros esboços na aquarela.
Em 2009, o professor, jornalista e blogueiro Henrique Perazzi de Aquino, parceiro de Fausto em outras empreitadas, foi convidado para o projeto para escrever os textos. A tabelinha dos craques estava formada. “O Henrique pesquisava, produzia os textos e, depois, eu ia para a aquarela”, diverte-se Fausto.
Como havia poucos registros oficiais, Henrique apostou na memória oral e foi ouvir as pessoas. E não se arrependeu. “Encontramos histórias deliciosas”, avisa.
Assim, a dupla eternizou, por meio da parceria texto-aquarela, a história do fundador do município, o padre Jeremias (grafia correta com J), uma luminosidade estranha nos anos 30 que trouxe até pesquisadores europeus à cidade, o pocinho e sua água com propriedades terapêuticas e até uma espécie de Canudos realizada nos limites de Reginópolis – esta reportagem não entrará em detalhes para não estragar a leitura.
Também houve espaço para o registro de personagens especiais, como o goleiro René Raduan, titular do Reginópolis Futebol Clube por 15 anos e ídolo de Fausto, os maestros e rivais Eugênio Ramos de Oliveira e Osório Teixeira Cintra, os artistas Baccan e Montanher, e Getúlio Said, voz que, há 35 anos, anuncia a Ave-Maria pontualmente às 18h, pelo sistema de som da cidade. Estão também, pelas 120 páginas da obra, as placas da cidade, os belos vitrais da igreja, prefeitos e vereadores de toda a história. “Com esse registro, esperamos inspirar outras pessoas a reunir mais e mais histórias sobre Reginópolis”, explica Henrique.
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