18/02/2013 06:52

97% dos internos são usuários de drogas

Série do BOM DIA mostra que vício em entorpecentes leva adolescentes ao mundo do crime

Na manhã de ontem um adolescente foi apreendido por tráfico de drogas. Pela tarde, outros dois jovens, entre eles uma garota de 16 anos, foram apreendidos por associação ao tráfico.

Nas cadeiras do plantão policial, a juventude dessa jovem se resumia apenas ao RG. No rosto, uma velhice forçada pelo vício estava explícita. “Eu uso crack faz uns anos”.

A pele é ressecada e cheia de marcas. Quando abre a boca para conversar, os efeitos bruscos do crack ficam claros nos dentes já escuros e faltantes. Ela largou a escola aos 12 anos. Não tem casa fixa e ontem embalava droga para ganhar as pedras que iriam “garantir” o domingo.
Sua história, apesar de chocante, já não surpreende.

Dos 94 meninos internados na Fundação Casa de Bauru apenas três não usavam drogas antes da internação. Setenta por cento deles estão lá por tráfico e essa maioria se repete entre os jovens em semi-liberdade e liberdade assistida.

Por mês, cerca de oito meninos são apreendidos pela Diju (Delegacia da Infância e Juventude) por vender drogas, número muito maior que o de apreendidos em outros crimes. 

O ciclo, afirmam os profissionais que lidam com a juventude, está claro: o adolescente entra para o crime para alimentar o vício e acaba refém do traficante, que fornece a droga para que o menor use desde que ele também faça a venda.

Mesmo os furtos e roubos são justificados ao juiz Ubirajara Maintinguer, da Infância e Juventude, pela necessidade de comprar droga. “Antes eles roubavam tênis, celulares, porque queriam ter esses objetos. Hoje 90% praticam esses crimes para manter o vício”.

A opinião é compartilhada pela diretora da Fundação Casa de Bauru, Silvana Regina Yonashiro, que relata ainda que o consumo de drogas torna difícil a adaptação dos meninos às medidas sócioeducativas.
“Eles não são difíceis de lidar. O que os torna assim é o consumo de drogas, que faz com que eles não queriam estar aqui dentro, onde não podem consumir”, avalia ela.

Os adolescentes, assim, seriam “escolhidos” pelos traficantes para a venda das drogas por se tornarem mais vulneráveis a partir do vício.
Além disso, outra questão que os empurra para o crime é o fato de não responderem ao Código Penal, estando sob penas mais leves, como já foi explicado na edição de ontem.

O delegado Roberval Fabbro, da Diju, percebe que os jovens são assediados pelos traficantes  que aproveitam-se da vulnerabilidade social e da desestrutura familiar dos adolescentes para colocá-los no crime. “Eles são presas fáceis por todas essas circunstâncias da própria idade”, pontua. 

Sociedade de consumo/ Seja para comprar droga ou para obter produtos pessoais, o que impulsiona o adolescente ao crime é o consumo. 

Pedro (nome fictício) é um dos três internos da Fundação que não usam droga. Ele está lá por roubo e o fazia para ter o que a situação simples da família não proporcionou.

A vulnerabilidade social na qual a maioria dos adolescentes infratores está inserida, somada à falta de estrutura familiar, leva tanto ao vício, como válvula de escape, e depois ao tráfico, como forma de sustento, quanto aos demais crimes.

Para Ubirajara esse é o reflexo da sociedade consumista na qual vivemos. “A concentração de renda que faz com que o preço dos produtos aumentem e, quem não tem condições para comprá-los, vai obtê-los de outra forma. Essa ideia de que só existe felicidade consumindo vai deixar alguém triste”.

O quatro poder/ E é justamente na lacuna dessa triste que o traficante se faz mais forte. Os “chefes” do tráfico nos bairros periféricos acabam sanando as lacunas que o poder público deixa pra trás.

Muitos dos adolescentes entrevistados relatam que o traficante “ajuda mais que todo mundo”, nas palavras de um deles. Hoje, em muitos bairros, é ao traficante que as pessoas recorrem quando precisam.
“O traficante compra remédio, roupa, comida e isso é ainda mais forte em cidades pequenas da nossa região”, analisa Roberval Fabbro.

A imagem que o traficante constrói ao praticar esse assistencialismo é ponto forte para atrair os adolescentes ao crime. “O modelo de vida que eles estabelecem é o do traficante, e isso deixa a gente muito temeroso”, alerta Silvana.

Ela percebe que os adolescentes chegam à Fundação Casa com a ideia de que é através do tráfico que se cresce na vida.
“Eles veem que o traficante tem dinheiro, tem carros, tem posses e querem ter também. Porque eles acabam tendo a sensação de que o traficante protege mais do que o Estado”.

Para reverter essa ideia criada pelo jovem, é preciso um trabalho árduo. Principalmente pelo ganho “grande e fácil” que o tráfico oferece. “Eles chegam aqui com o discurso de que com a droga ganham um salário mínimo por final de semana”.

É possível deixar o crime?

André, 18 anos, está na Fundação Casa há nove meses por tráfico de drogas. Vendia para manter o vício que começou quando tinha menos de 16. “Eu sempre trabalhei, tenho carteira assinada, mas comecei a usar droga muito cedo e cai no crime para não pegar as coisas de casa”, conta, perguntando de minuto a minuto se seu nome real será preservado, se a foto será escura e irreconhecível para evitar represálias dos donos do tráfico.

Ele começou com a maconha, mas chegou até o crack. Passou a vender pela “facilidade” do tráfico. Afirma que a mãe nunca deixou faltar nada, mas que ele preferia não tirar dinheiro de casa para manter o vício. “O dinheiro vem  mais fácil do que em outros empregos”. André já trabalhou como mecânico, serviços gerais, carregador.
 
Como traficante conta que chegava a ganhar de R$ 600 a R$ 700 em um dia. De boa aparência e inteligente, tinha potencial para ocupar cargos além da venda no “vapor”, que é a base do esquema criminoso.

Os adolescentes que ficam no “vapor” são os que fazem as vendas nas biqueiras, considerado o posto mais difícil, pela exposição que dá maiores chances de o jovem ser flagrado pela polícia.   

Hoje, André garante que vai mudar. “Eu tenho bom comportamento aqui dentro, apoio da família, vou sair dessa vida”. Mudança que Vitor, 16, (ambos nomes fictícios) já tentou mais de uma vez.

Dentro do camburão da Polícia Militar ele conta que já foi pego com drogas mais de duas vezes. Passou alguns meses internado na Fundação, mas voltou rápido à cadeia criminosa. Vitor trabalha no vapor, no embalo, naquilo que o traficante mandar. Em outro camburão, seus dois irmãos, 12 e 18 anos, aguardam para prestar depoimento como testemunhas. O do meio assumiu toda a droga e será apreendido sozinho. “Eu assumo sozinho. Eu que fiz”. 

A droga foi encontrada no barraco onde os três jovens moram com o pai alcoólatra. A mãe morreu há anos.  São os pequenos que sustentam a casa. “Meu pai ajuda um pouco, mas a gente trabalha”. Além de ser usuário, Vitor vende drogas para pôr comida em casa.

Quando questionado sobre os tempos de Fundação, diz que foram bons: estudou, aprendeu a trabalhar com elétrica. Quando questionado por que não mudou de vida após a primeira apreensão, a resposta é quase um pedido de ajuda. “Os cadernos do curso estão em casa, senhora. Não joguei fora”.

André, com apoio familiar e fora da vulnerabilidade social, planeja mudanças fora da Fundação. Vitor desiste de tentar. “Como que eu vou fazer outra coisa?”. 

Bauru não tem vagas de internação para adolescentes

A constatação de que grande parte dos adolescentes entra no crime para manter o vício leva à conclusão de que são necessárias duas linhas de combate: ao tráfico e ao vício.

Infelizmente, Bauru está longe de atuar em uma delas. A cidade, como o BOM DIA já abordou em matérias no ano passado, não tem vagas públicas de internação para adolescentes usuários.  

Para conseguir internar um dependente químico, a família precisa entrar com pedido judicial e conseguir um mandado. Só a partir daí é que o município encaminha o adolescente para unidades terapêuticas em Votorantim ou Araraquara.

Em entrevista concedida ao BOM DIA no ano passado, o secretário de Saúde, Fernando Monti, explicou que faltam na cidade instituições interessadas em firmar convênios com o município para prestar o serviço de internação.

De acordo com ele, o custo para o município construir e manter uma clínica é inviável e o serviço deve ser feito por convênios.

A assessoria de imprensa do município informou que não há projetos ou mudanças nessa situação até agora.

Enquanto isso, a triste realidade continua. A menina apreendida ontem afirma que gostaria de sair do vício, mudar de vida. Sem apoio familiar para brigar por uma vaga de internação, a saída fica longe. “Mas não tem jeito. Vou pra onde?”

 


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