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24 MAIO
dia a dia
10/02/2012 20:19

Morre aos 90 anos Guillermo Coronado

Conheça a história do professor que teve a vida dedicada à educação e à arte e homenagem de Alaor Ignácio REDAÇÃO
Arquivo/Romildo Sant’Anna Guillermo de La Cruz Coronado Guillermo de La Cruz Coronado

Cheia de livros, ensinamentos e amigos. Essa foi a vida de Guillermo de La Cruz Coronado, que morreu quinta-feira (9) em Rio Preto, aos 90 anos. Nascido em Quintana de La Serena, Espanha, formou-se em letras pela Universidade de Sevilha, em 1948, em letras neolatinas pela Universidade de Madrid, Espanha, em 1951.

Também é formado em língua, literatura e cultura portuguesa pela Universidade de Coimbra, em Portugal, em 1950, em língua e cultura italiana pelo Instituto Italiano de Cultura de Madrid e, em literatura e arte italiana pela Sociedade Dante Alighieri, de Roma, em 1951. Deu aulas na Europa, no Seminário Maior, no Liceu Filosófico de Jerez de los Caballeros de 1943 a 1944, na Faculdade Teológica de Zafra de 1944 a 1945, no Colégio Corazón de María, de Don Benito, de 1945 a 1946 e também na Academia de Engenheiros na Universidade de Madrid de 1949 a 1951 e no Colégio Claret, de Sevilha, de 1951 a 1952.

Já no Brasil, onde se naturalizou em 1955, deu aulas na Unesp de 1959 a 1987 e foi o fundador dos cursos de filologia românica em 1979 e história da arte em 1980. Além da Unesp, foi  professor na Universidade Federal do Paraná entre 1952 e 1957 e na Universidade Católica do Paraná, entre 1953 e 1958.

Em Rio Preto também era o membro eleito para a cadeira número 20 da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura. Coronado escreveu nove livros, entre os quais “Poemas de Intimidad”, de 1950, “Coimbra, Piedra y Paissaje”, de 1951, “Angel Gabriel”, 1954 e “Primavera Austral: Poemas Brasileños”, de 1956.

O professor e escritor deixa a mulher, Vera Helena de La Cruz Coronado, os filhos Juan Gabriel, Fabíola e Priscila. O enterro do corpo foi na sexta-feira (10), no cemitério Parque Jardim da Paz.

Leia abaixo texto do colunista do BOM DIA Alaor Ignácio sobre Guillermo de La Cruz Coronaro:

¡Qué cosa horrible!”
Alaor Ignácio
 
¡Qué cosa horrible! A exclamação surgia carregada de sinceridade, dita pelo crítico de arte encarregado de julgar salões de pintura, no Centro Cultural de Rio Preto, nos anos 1970-80. Nas décadas seguintes, o mesmo crítico, autor de alguns dos mais sugestivos estudos de artes plásticas relacionados às obras dos espanhóis Francisco Goya (1746-1828), Juan Miró (1893-1983) ou El Greco (1541-1614), entre outros, simplesmente se recusava a aceitar os convites para julgar artistas locais. Talvez para poupar o uso a famosa frase sincera, porém deixava inconfesso o motivo da recusa, com a elegância dos sábios. Quando abriu uma exceção ao primitivista rio-pretense Edgard de Oliveira, nos anos 1990, sintetizou como ninguém os conceitos de arte naïf e de pintura primitiva.

Para a literatura e a crítica literária, seu legado seria ainda maior. Começou com publicações como poeta (“Intimidad”), em 1950, ainda em Madri, mas faria outros três livros, na Espanha, Portugal e no Brasil. Como crítico, publicaria outros quatro livros, com especial destaque para seu estudo sobre o primeiro capítulo de Dom Quixote (“Pórtico al Quijote”), que é uma verdadeira obra prima àqueles que pretendem ler e conhecer Cervantes. Ensaios acadêmicos, críticas e revistas científicas, também os realizou às tantas.

Severo, muitas vezes ingênuo para as mazelas brasileiras e com um ar de eterno mal humorado, ocultava uma docilidade que não cabia naquele metro e setenta de sua estatura física. Seus diretos e diletos discípulos, Antonio Manoel dos Santos Silva e Romildo Sant’Anna, bem o traduzem numa crônica emotiva e grata publicada no site Triplov (http://triplov.com/romildo/cruz.html).

Por hereditariedade acadêmica, orientado que fui por Romildo e Antonio Manoel, nosso mestre me denominou seu “neto”. E já no final da década de 1990, nos tornamos colegas numa faculdade privada, onde lecionamos. Com erudição e respeito, disse que meu primeiro nome era também o de um emir árabe, na invasão otomana da Espanha. Quando o “enfrentei” nos conhecimentos, dizendo que era também o nome de um farmacêutico que morou perto da casa minha avó, pois carrego um “júnior” comigo, ele primeiro armou-se para o debate, depois soltou uma gargalhada, das mais fabulosas e improváveis naquele homem sério.

Passei a “frequentá-lo” nos intervalos das aulas, reuniões administrativas e em todos os deveres do ofício para os quais éramos convocados a participar. Aprendi em dois anos aquilo que demoraria décadas para compreender em estudos regulares. De fala mansa e com a perspicácia de uma águia, me guiava pelos caminhos labirínticos da filosofia, da arte e da condição humana.

Sexta pela manhã, quando o vi pela última vez, deitado em seu leito de morte, aprendi um pouco mais sobre a efemeridade da vida. E, quietinho num canto, provavelmente como ele próprio o faria, disse-lhe adeus, com uma piscadela íntima. Ele, o professor Guillermo de la Cruz Coronado, que jamais deixou em dúvida qualquer um de seus discípulos, dessa vez não respondeu. Absorto no seu ora infinito diálogo com Deus.

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