Empresa que começou em Bauru, na década de 1930, com a venda de miúdos bovinos, depois virou fábrica de linguiças e, no final da década de 1980, começou a exportar carnes de qualidade, o Frigorífico Vangélio Mondelli é um dos ícones industriais da cidade.
Por isso, é normal que os moradores do Mary Dota, onde fica o frigorífico, estranhem a diminuição do movimento de caminhões e que boatos sobre o destino da empresa circulem nas típicas rodas de conversas.
O fato: o Frigorífico Mondelli protocolou, no final de janeiro, na 2ª Vara Cível de Bauru, um pedido de recuperação judicial, instrumento que ajuda empresas em dificuldades financeiras a superar a crise, com a preocupação de garantir os interesses dos credores. Uma nota oficial sobre o processo foi divulgada pela empresa, que revelou passar por um processo de reestruturação. “Ciente de nosso papel nesta comunidade, o Mondelli pretende, no menor tempo possível, garantir o cumprimento de todas as suas obrigações junto aos seus parceiros e credores em geral”, diz a nota.
O BOM DIA esteve ontem à tarde no frigorífico e conversou com o diretor geral, Constantino Mondelli Jr., 30 anos. Ele afirmou que demissões não fazem parte dos planos. Os 700 funcionários estão mantidos. Também disse que o frigorífico continua nas mãos de quatro sócios que fazem parte da família fundadora. “Não vai sair de Bauru”, garantiu. “Não estamos interessados em vender.”
De acordo com o diretor, o Mondelli segue no mercado. O BOM DIA apurou, no entanto, que a empresa trabalha com estoque e não faz abates no momento, até porque tem dívidas com pecuaristas.
Assessoria
A consultoria internacional KPMG Restructuring e a Advocacia De Luizi foram contratadas para dar suporte à reestruturação. Ambas são especializadas no assunto. “Adotaremos as medidas corretivas necessárias para eliminar as distorções que causaram e aprofundaram o atual estado de crise, que sabemos ser passageiro”, diz a nota, sem dar detalhes do que será feito nos próximos meses.
A empresa aguarda a resposta sobre o pedido de recuperação judicial para apresentar no processo a proposta dos termos e das condições para pagamento de dívida com os credores.
Por enquanto, o valor da dívida não é revelado, mas isso será público quando a proposta for apresentada no processo.
Funcionários ouvidos pela reportagem confirmaram que não foram feitas demissões até o momento. Mas também mostraram preocupação com a falta de movimento visível no frigorífico, antes sempre agitado.
Empresa ainda tem administração familiar
O Frigorífico Mondelli não divulgou o valor da dívida nem seu faturamento anual. Mas, segundo o Valor Econômico, o faturamento chega a R$ 300 milhões anuais. O diretor-geral, Constantino Mondelli Jr., é neto do criador do frigorífico.
52
É o número de países para os quais o frigorífico tem habilitação para exportar carne.
Tentativa de profissionalizar
A contratação de executivos foi anunciada pela empresa em 2010, para profissionalizar a gestão e enfrentar os desafios do mercado.
900
É a capacidade de abatimento de animais por dia, segundo informações do site da empresa.
Abate especial é um os pontos fortes
Um dos diferenciais conhecidos do Mondelli é a habilitação para praticar o abate Halal, que atende o mercado islâmico.
Empresa começou com italiano
A história do frigorífico começou com o italiano Vangélio Mondelli, que veio da Província de Salermo na década de 1920. Em São Paulo, trabalhou nos bondes da Light e como graxeiro. Depois, ainda na Capital, começou a vender miúdos bovinos
Ele veio para Bauru na década seguinte, já com cinco dos seus dez filhos. Foi morar na Vila Cardia e comprou uma empresa de miúdos e, depois, a fábrica de linguiças.
O negócio prosperou e deu origem ao frigorífico – que, em 1978, inaugurou seu abatedouro. A partir de 1988, os produtos da marca chegaram ao mercado internacional e, em 1993, foi inaugurada
a divisão de embutidos e industrializados.
A família é uma das mais tradicionais de Bauru e tem integrantes em vários setores profissionais da cidade.
O presidente da Emdurb, Nico Mondelli, por exemplo, é um dos descendentes do italiano Vangélio.
Rosa Malandrino Mondelli, a mulher do pioneiro, dá nome a rua conhecida no Mary Dota. Justamente a rua onde fica o frigorífico, agora vivendo grave crise financeira.
Crise no setor causa pedidos de recuperação
Os últimos anos não têm sido fáceis para os frigoríficos brasileiros. Segundo informações da Abrafrigo (Associação Brasileira de Frigoríficos) divulgadas ano passado, nos últimos tempos foram feitos vários pedidos de recuperação judicial.
A situação teria começado a ficar crítica com a descoberta de febre aftosa no Mato Grosso do Sul, em 2005, o que prejudicou as exportações brasileiras e derrubou o preço da arroba do boi. A entidade informa que aconteceram abates de matrizes e, em consequência, redução de rebanhos.
Segundo dados divulgados pelo jornal “Valor Econômico”, as exportações de carne bovina do Brasil para a União Europeia caíram 68% entre 2007 e 2011.
O embargo à carne brasileira, as dificuldades de competitividade por causa do câmbio e a crise financeira na Europa seriam as principais razões.
Entre 2009 e o ano passado, o setor enfrentou a falta de bovinos para abate, o que elevou o preço da arroba. Ao mesmo tempo, os frigoríficos precisaram lidar com a grande concorrência no mercado atacadista, gerada pela produção superior à demanda do mercado consumidor.
Além de recuperar o mercado europeu, uma das soluções discutidas por líderes do setor é a conquista de mercados como os da China, Coreia do Sul e Taiwan.
Há cobrança para que o governo atue nesse sentido. Existem ainda análises sobre uma reestruturação da cadeia produtiva, realizada em conjunto pelo poder público e iniciativa privada.
Copyright Rede Bom Dia de Comunicações 2011. Todos os Direitos Reservados