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Rede Bom Dia

VERSÃO IMPRESSA QUINTA-FEIRA
24 MAIO
dia a dia
08/02/2012 15:57

Nasce bebê de mulher baleada em Várzea Paulista

Vitória veio ao mundo após uma cesárea em Jundiaí; mãe e nenê estão internados na UTI em estado estável kadija rodrigues
kadija.rodrigues@bomdiajundiai.com.br

Vitória, a filha de Michele Cristina de Oliveira, 27 anos, que levou dois tiros na Vila Indaiá, em Várzea Paulista, nasceu na manhã desta terça-feira (7) pesando 2,890 kg e com 48 centímetros. O parto foi de cesárea e a decisão tomada em razão de a mãe ter perdido muito sangue. Mãe e filha estão na UTI do Hospital Santa Eliza, mas não correm mais risco de morte.

Michele ainda teve o baço retirado, por causa de ferimento a bala. Ontem, familiares dela disseram que havia alguém interessado que ela perdesse a filha, sem apontar culpados - em dezembro ela teria sofrido outro atentado.

O nascimento estava previsto para o próximo dia 24. Como a bebê já tinha completado 37 semanas, os médicos viram como melhor opção realizar o parto nesta terça-feira pela manhã.

Segundo a médica Giselda de Rezende Eugênio, coordenadora da UTI Neo Natal Infantil, “era preciso adiantar o parto porque a mãe havia perdido muito sangue e já estava com anemia, sem contar que a pressão arterial estava alta. E tudo isso reflete automaticamente no bebê”.

De acordo com a médica, Michele deu entrada às 23h50 de segunda-feira no hospital - ela tem convênio -, após ter passado por atendimento no Hospital da Cidade, em Várzea Paulista, logo após receber os dois tiros, um no ombro e outro nas costas, e  também pelo São Vicente.

Até o horário do nascimento de Vitória, a equipe de plantão medicou a mãe para que a pressão arterial e o sangramento fossem controlados. O próximo passo foi a realização do parto, seguido por uma cirurgia. “Foi feito uma laparatomia, ou seja, a retirada do baço e a implantação de um dreno no tórax, procedimento comum nesses casos”, disse Giselda. A médica contou que a paciente está bem e consciente.  A bala perfurou o baço e passou de raspão no fígado, ficando alojada ao lado da coluna. Ela segue internada na UTI sem previsão de alta.

O Parto
De acordo com Giselda, por ser um parto de urgência, Vitória precisou de reanimação e estímulos para respirar. “Geralmente os bebês nascem chorando forte, com batimentos cardíados na casa dos 120 a 160 por minutos. No caso da Vitória, estava bem abaixo disso”, explica.

Porém, a médica disse que entre cinco a dez minutos depois de seu nascimento, Vitória já dava sinais de ter o mesmo vigor de uma criança que nascesse de uma forma “normal”. “A sorte é que essa criança já tinha completado 37 semanas, caso contrário poderia nascer com alguma sequela, o que não foi o caso dela.”

De pele bem clara e com pouco cabelo, Vitória deve permanecer na UTI Neo Natal pelos próximos três dias, onde  recebe soro. Após esse período, se tudo correr bem, eles começam com a alimentação que pode ser com o próprio leite materno - caso não dê certo, o hospital oferece o NAM.  Giselda alerta sobre a hipótese de a mãe não ter condições de dar o leite materno no início.  “A expectativa é de que, em uma semana, essa menina já poderá ir para o quarto.”

Sobre a mãe, a médica diz: “Cada indivíduo reage de uma forma, mas pelas circunstâncias como tudo aconteceu, pode ser que ela sofra depressão pós-parto. E mesmo que isso não aconteça, ela vai precisar de um acompanhamento psicológico.”

Quanto a Vitória, a psicóloga Rita Nicioli Cerioni, ouvida pelo BOM DIA, diz que “a situação pode ser ou não traumática, dependendo  dos cuidados e como essa vivência será transmitida a ela”.

Se depender da família, tudo indica que mãe e filha terão todo apoio necessário. Na tarde de ontem, pai, irmã, tia e prima passaram pelo hospital no horário de visita. A primeira que chegou, por volta das 15h45 foi a prima Tatiane Aparecida de Oliveira Souza. “Consegui ver a Vitória, ela é linda”, diz.

O pai de Michele, João Alves de Oliveira, depois de passar a noite toda no hospital, voltou no início da tarde. Ao sair da sala da UTI, ele disse que ela estava bem e que deveria ir para o quarto hoje. Ele ainda não tinha conseguido conhecer a neta.

Michele teria sofrido um outro atentado em 2011
Segundo familiares, não é a primeira vez que a vítima sofre perseguição. Em dezembro passado, um homem armado fez disparos para assustar a mulher

Durante a visita ao hospital na tarde desta terça-feira, familiares de Michele afirmaram ao BOM DIA que não foi a primeira vez que ela sofreu um atentado, embora o anterior não tenha sido registrado na polícia.

Em dezembro do ano passado, dizem, ela descia por um escadão ao lado de sua casa, na rua Igaratá, quando se deparou com um homem. Este, tirou um revólver da cintura e fez disparos. Os tiros não foram dados na direção dela, mas o objetivo seria o de assustá-la. “O cara queria que ela perdesse o bebê”, dizem.

Na época, ela não quis registrar boletim de ocorrência, apenas decidindo por mudar o caminho que fazia diariamente entre sua casa e o ponto do ônibus. “Michele engravidou de um caso que teve e o possível pai não queria assumir a criança. Em nenhum momento ela exigiu nada dele, dizia que ia criar a bebê sozinha, porque tinha condições de fazer isso”, afirma uma de suas primas.

Tentativa de homicídio O que foi ameaça em dezembro, anteontem passou para tentativa de homicídio. Michele levou dois tiros, um no ombro e outro nas costas. Isso ocorreu quando dois homens em uma moto pararam no ponto onde ela aguardava o fretado da empresa. Foi o garupa quem atirou.

A polícia
Para avançar nas investigações, a polícia aguarda liberação do hospital para conversar com a vítima quando seu estado de saúde estiver melhor. De acordo com o delegado Marcel Fehr, de Várzea Paulista, as testemunhas que prestaram depoimento não souberam informar nada a respeito dos dois motociclistas que atiraram na grávida. “Soube que houve uma tentativa de homicídio antes dessa, mas não foi registrado na ocasião. Estamos investigando”, afirma.

Cronologia
Segunda-feira às 6h50: Michele sai para trabalhar  e vai para o ponto de ônibus aguardar o fretado que a levaria até a  Recall, empresa onde trabalha em Jundiaí. Alguns instantes depois, quando  colegas de trabalho se aproximam do ponto, dois homens em uma moto param ao lado dela e dois tiros são disparados. A vítima é socorrida pelo SAU (Serviço de Atendimento de Urgência) para o Hospital da Cidade, que chega em cerca de 10 minutos ao local, segundo testemunhas.

Por volta de 7h30: O Hospital da Cidade decide transferir Michele para o São Vicente, em Jundiaí, porque seu estado inspirava cuidados.

No início da madrugada: Michele consegue vaga no Hospital Santa Elisa e é levada para lá.

6h13: Médicos realizam a cesárea. Nasce Vitória. Em seguida, Michele passa por cirurgia para retirada do baço. Mãe e filha estão internadas na UTI do hospital.

Nova versão
Michele não tem antecedentes criminais, segundo a polícia de Várzea Paulista. Na edição desta terça-feira, o BOM DIA deu a versão de seu irmão, Leandro de Oliveira, e de sua mãe, Maria Eliete, de que “ela nunca teve problemas com ninguém e não tinha inimigos”.

Outros familiares resolveram contar, ontem, sobre o caso ocorrido em dezembro. O delegado de Várzea confirmou não ter identificação dos bandidos e disse que ninguém teria conseguido ver a placa da moto.

Opinião
Rita Aparecida Nicioli Cerioni, psicóloga
É preciso amparar o bebê

Segundo a psicanálise, o evento em si não determinará um trauma para esta criança. Mas a situação pode ser ou não traumática dependendo principalmente de dois fatores: como esse bebê será cuidado nestes primeiros momentos de vida e como essa vivência será transmitida a ele.
 
De imediato, é preciso que alguém da família assuma a função  materna, já que a mãe está internada na UTI (Unidade de Terapia Intensiva), não só com os cuidados físicos mas com o acolhimento desta criança, sua recepção no mundo. Pode ser a avó, a tia ou qualquer outra pessoa com quem o bebê irá estabelecer um vínculo afetivo e duradouro, por isso a importância de ser alguém próximo do bebê.

Contudo, a família está vivendo um momento bastante delicado e difícil e a maneira como conseguirá elaborar tudo isso pode ou não interferir emocionalmente na criança.

Não é possível avaliar quais seriam os sintomas. A criança pode se tornar insegura ou desenvolver medos, por exemplo, mas outro bebê que não passou pela mesma situação também está sujeito a isso em seu desenvolvimento. Por hora, a família deve ser amparada para que ampare bem o bebê e sua mãe.

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