As áreas preservadas da Serra do Japi permitem que uma pessoa possa ouvir uma cachoeira, apalpar cascas de árvores, sentir o gosto de um pedaço de fruta, avistar pássaros voando e sentir o cheiro de folhas e plantas. Em outras palavras, fazer contato com a natureza pelos cinco sentidos. “É o conceito de trilhas interpretativas, mas ainda estamos mapeando os pontos de beleza cênica e só depois virão os critérios finais, como a capacidade de suporte de visitantes por dia ou semana”, diz a estudante Isabella Baroni, 22 anos, que escolheu o assunto para o trabalho de conclusão do curso de biologia da Universidade Federal de São Carlos.
Desenvolvido na área da Rebio (Reserva Biológica Municipal), que ocupa 7% da área total tombada, é orientada por Eliana Cardoso Leite, pesquisadora com diversos trabalhos feitos também na Serra.
Reforços
E, no caso de alguém desconhecer a imensidão de vida abrigada nessa reserva, já está tudo pronto para o livro “Novos Olhares, Novos Saberes sobre a Serra do Japi - Ecos de sua Biodiversidade”, que está previsto para este ano pela Editora da Unicamp, com o apoio de 40 pesquisadores e convidados. “É um incrível esforço de textos e imagens, com surpresas até para nós que estamos envolvidos”, diz a técnica ambiental Patrícia Polli, 27, que colabora na edição feita pelo zoólogo João Vasconcellos Neto, responsável pela base ecológica da Serra no convênio entre a universidade e a Prefeitura de Jundiaí.
Nos riachos das partes baixas, em um exemplo fora da reserva municipal, foram registradas 144 espécies (táxons) de insetos aquáticos nas pesquisas de Cláudia Yoshida.
Mais surpreendente ainda é a lista de carnívoros feita por Marcel Franco Penteado e equipe, constatando onça-pintada, suçuarana, jaguatirica, gato-mourisco, gato maracajá, gato-do-mato-pequeno, cachorro-do-mato, quati, mão-pelada, irara, furão e porco-do-mato. Dá para acreditar?
Envolvimento
As reuniões com os moradores do entorno do Parque Natural Municipal de Cajamar, também na Serra, estão caminhando para um conselho gestor e regras da zona de amortecimento. “Conseguimos reunir tanto o assentamento Pedro Casaldáliga como a fazenda Japiapé, com apoio da Natura”, diz o educador Paulo Roberto Dutra, da entidade Mata Nativa.
Já o outro lado, de Cabreúva, tem trabalhos de estudantes sobre o Sítio do Sol (espaço na Serra onde monitores indígenas orientam a educação ambiental) e sediou a reunião decisiva do 2º Epajuma (Encontro Paulista de Juventudes e Meio Ambiente) que vai acontecer no final de abril na cidade de Presidente Alves. “Nosso foco é essa transição de gerações que está acontecendo na consciência ambiental e, claro, a Rio + 20 em junho”, diz o educador ambiental Cristiano Andreazza, 32. O evento das Nações Unidas também é lembrado por Mariluce Varalda, de Cajamar.
Em Jundiaí, a educação é citada ainda pelo engenheiro e professor Flávio Gramolelli Jùnior, do Coati (Centro Ambiental Terra Integrada), que há anos realiza eventos da campanha “Serra do Japi, Quem Deve Cuidar Somos Nós”. Ele diz que o tema é sempre atual diante das pressões sobre a Serra e que as crianças que participaram antes mostram mais consciência hoje.
Obstáculos
O contato direto com a natureza é parte fundamental dessa consciência. Mas as restrições nas propriedades privadas e o debate das políticas públicas suspenderam há alguns meses a maioria das trilhas tradicionais da Serra. “É preciso saber que temos 125 espécies de orquídeas para querermos proteger”, diz Polli.
Macacos variam na Serra e na zona rural em Jundiaí
Os sons das “vozes” não enganam. Na Serra está o macaco-sauá, de cara preta, enquanto o bugio aparece apenas nos bairros rurais a noroeste.
85 são as espécies de margarida na Serra com polinização variada
Aranhas ali vivem em colônias.
Nos raros lugares onde as aranhas são sociais, a Serra do Japi é um local único. “Pode ser o mais importante”, afirmam no livro Marcelo Oliveira Gonzaga e João Vasconcelos. Quem diria...
Ação sensorial tem pico em caso do bicho-casca
A reeducação sensorial tem narrativa épica no caso que João Vasconcellos Neto, da Unicamp, registrou a percepção de portadores de deficiência visual ao bicho-casca Phloeophana longirostris, um percevejo invisível aos olhos comuns. A direção do Jardim Botânico de Jundiaí também tem discutido possibilidades com o zoólogo.
Curiosidades
1 - Ponto de equilíbrio tem riscos apontados no livro
A visitação desordenada é um risco citado ao lado de “defaunação” por perda de habitat, mineração, incêndios e desmatamento, entre outros.
2- Referência completa vinte anos
O livro “História Natural da Serra do Japi”, organizado por Patrícia Morelato e Hermógenes Freitas Leitão em 1992, é um marco na pesquisa sobre o Japi.
3 - Serra deve ser tema de seminário
A revisão da atual lei municipal da área da Serra, a 415 (2004), foi suspensa para a montagem de um seminário previsto para março, quando serão completados 29 anos do tombamento da área. Existem propostas de novas unidades de conservação para melhorar a proteção da área.
4 - Visitação em trilhas está suspensa
A revisão das regras na Serra também suspendeu desde 2010 as visitas monitoradas na Reserva Biológica, também proibidas por proprietários particulares. O estudo atual da Ufscar, entretanto, tem apoio da prefeitura.
5 - Referências sociais podem desaparecer
As mudanças sumiram com o acesso a pontos conhecidos de outras gerações, como a Cachoeira do Tronco, a Trilha das Aranhas e até o Eucalipsom.
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