Não teve jeito. Até quem não tem o hábito de frequentar as redes sociais da internet ouviu inúmeras vezes o bordão “menos a Luiza, que está no Canadá”. Ouviu, repetiu, fez piadinhas e cansou do meme. Meme? O que é isso?
Abreviatura do grego mimeme (imitação), na internet é tudo que passa de uma pessoa para outra e vira mania, gíria, bordão repetido em diversas ocasiões. Os especialistas em memes (sim, isso já existe!) citam o livro “O Gene Egoísta”, do zoólogo Richard Dawkins, nas explicações. Ele definiu meme como uma unidade de evolução cultural, propagada de indivíduo para indivíduo. “Pode ser uma imagem, uma gíria ou bordão, um vídeo, um traço comportamental, ícones e caracteres”, explica o site youPix (www.com.br), que tem até uma enciclopédia de memes, a memepedia.
Ator, produtor e diretor teatral, Paulo Balderramas, é figura frequente no Twitter e no Facebook com o nome de seu personagem mais famoso, a drag queen Rubya Bittencourt. Com bom humor, costuma aderir aos memes. Mas tem reparos a fazer à moda de transformar em celebridades pessoas que não fizeram nada para ter reconhecimento público. “A gente trabalha 18 anos como ator, mais 15 como drag, ganha quatro prêmios e aí vem a Luiza e samba na cara da gente”, escreveu nas redes.
Para Rubya, a internet escolhe “personalidades relâmpagos” pelo nível de estupidez. A drag cita o transexual Lui zaMarilac, protagonista de um vídeo divertido em que aparece numa piscina, bebendo seus “bons drink”. A frase final dela ficou famosa: “E teve boatos que eu tava na pior...”. “O nível de estupidez foi tamanho que envergonhou uma classe pelo português errado e embriaguez evidente”, critica.
Há também quem revele o cansaço diante da onipresença dos personagens da web. “A Luiza pegou muito. Mas enjoou”, confirma a assessoria de imprensa Elaine de Sousa. “Essa maldita Luiza não poderia ter uma passagem de ida para o inferno agora?”, brinca o designer gráfico Edy Braos.
No início restritos ao ambiente digital, hoje os memes invadem conversas do dia a dia, campanhas publicitárias e programas de televisão.
Luiza Marilac, por exemplo, foi imitada pela atriz Deborah Secco na novela “Insensato Coração”. A outra Luiza, a do Canadá, participa de campanhas publicitárias e fecha negócios depois da fama. “Verifica-se a crescente tendência de emergência das memes para o mundo real. Enquanto as memes dos primeiros anos da internet raramente saíam daquele universo, hoje é possível observar memes aparecendo na mídia de massa, apropriadas por programas de humor ou mesmo por campanhas publicitárias”, analisa o professor Fernando Fontanella, que estuda o assunto e escreveu o artigo “O que é um meme na internet? Proposta para uma problemática da memesfera”.
Jovem aproveita onda e ganha dinheiro
Luiza, que estava no Canadá, cobraria R$ 15 mil para participar de festas e já teria acertado a participação num comercial de veículos.
17 anos é a idade de Luiza, que agora está no Brasil, após temporada de estudos no Canadá.
Diva dos ‘bons drink’ teve vida sofrida
Por trás do vídeo divertido, uma história dramática. Luiza Marilac já foi agredida num bar de São Paulo e, na Europa, levou um golpe do namorado italiano.
Mais inteligentes
O jornalista Carlos Nascimento, do SBT, protestou contra a onda Luiza do Canadá . “Já fomos mais inteligentes”, disse, em seu jornal. Ele também criticou as discussões em torno do Big Brother Brasil
"Podem ser arma", opina internauta
Profissional da área gráfica, Delton Nascimento acredita que os idealizadores dos meios de comunicação e softwares voltados para as redes sociais não contavam com a força dos chamados memes, que na sua avaliação podem ser uma “arma” contra eles mesmos. “Porque, além de um meio de interação virtual, é uma máquina de formar opiniões e manipular os conceitos que temos sobre algumas coisas”, explica. “Portanto, aos criadores pertence todo o domínio da informação que pode ser voltada contra qualquer coisa ou qualquer um por maior ou mais importante que seja ".
Apesar dos memes já terem sido assimilados pela mídia tradicional, a verdade é que ninguém sabe o que vai “pegar” ou não.
A Luiza do Canadá, por exemplo, não teria sido planejada para tanta repercussão. “Artistas divulgam trabalhos sérios, de valor, profissionais e demoram pra chegar na marca de 1000 views”, lamenta Rubya Bittencourt. Mas ela mesma exalta os tempos de convivência virtual. “E viva a internet que nos informa e principalmente nos diverte”, diz.
Quer bombar na internet? Aposte no humor e no bizarro
A cada semana surge uma 'celebridade' que nasce na web e que consegue lucrar muito com isso, financeiramente, inclusive. Para você ou seu negócio entrar nesse mundo, especialistas em comunicação e marketing dão boas dicas
Stefhanie Piovezan/Agência BOM DIA
O que a “Luiza do Canadá”, Felipe Neto, PC Siqueira, Rebecca Black, Luisa Marilac e o bebê risonho do comercial de um banco têm em comum? Todos eles surgiram “do nada”, graças a vídeos e posts na internet.
Democrática, a rede pode impulsionar desde as pessoas que sonham com 15 minutos de fama até políticos, artistas, empresários e você. Sim, você. Por que não?
Segundo o professor Marcelo Lobianco, coordenador do curso de Marketing Digital da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), existem dicas que podem ajudar aqueles que querem usar a rede em busca do “estrelato”. “O caminho mais curto para viralizar o conteúdo é apostar no bizarro, no estranho e no humor. Os hits, como o vídeo ‘Evolution of Dance’ partem disso. As pessoas tendem a compartilhar mais aquilo que consideram fora de contexto”, diz Lobianco.
Além da descontração, estudantes e jovens que sonham com a popularidade entre colegas também podem – e devem – apostar na inovação, segundo a professora Ivone Rocha, coordenadora dos cursos de comunicação do Senac São Paulo. “Pode parecer difícil e há uma tendência de se pensar que tudo já foi feito e que não é possível criar coisas novas, mas isso não é verdade”, afirma Rocha.
Antes de sair por aí arrancando risadas, porém, lembre-se de que, no futuro, seus chefes poderão ter acesso a esse mesmo conteúdo. “Falta um código de comportamento. Vemos casos de discriminação, discussões, críticas ao trabalho. A pessoa também é uma marca e tem de pensar como quer ser vista no futuro. Todas as empresas que oferecem vagas pesquisam um pouco do candidato nas redes sociais”, lembra o professor da ESPM.
Além do acesso ao perfil de futuros empregados, as empresas também têm muito a lucrar com a rede, desde que estejam preparadas para essa tarefa. “O consumidor já descobriu que o poder está em suas mãos e a propagação de elogios ou críticas é instantânea. As marcas têm de ser mais reais, transparentes e próximas do seu público”, recomenda o professor.
“É melhor explicar que o produto não foi entregue por um problema com a logística do que passar por ridículo ao dar uma resposta que todos sabem ser falsa”, diz Rocha, que indica ainda contratar um consultoria para descobrir em qual das redes está o público que se quer atingir e como ele se comporta.
“Às vezes, uma rede favorece mais o tipo de indústria A e a outra, a B”, comenta Lobianco. O Twitter, por exemplo, é bastante útil para lidar com o humor e divulgar promoções. Já o Facebook, por ser mais completo, pode ser uma ferramenta no lançamento de produtos.
Agora, se a intenção for divulgar seus dons artísticos ou sua banda, esqueça a segmentação e tenha um perfil em todas as redes sociais.
“Os artistas têm de estar em todos os lugares e com uma atuação muito mais dinâmica. Isso vai ajudá-los a identificar o público”, recomenda Rocha.
E não adianta reclamar que não possui recursos. Como lembra Lobianco, o grande “barato” da internet é que ela rompeu as barreiras e oferece programas para edição de vídeos, fotos e músicas que antes custariam fortunas. “Não há desculpa para trabalhos em baixa qualidade”, finaliza.
E aí, já jogou seu vídeo no YouTube? Ele pode mudar sua vida. Não é, Luiza?
Copyright Rede Bom Dia de Comunicações 2011. Todos os Direitos Reservados