A história dos comerciantes Osni e Odete de Godoy daria um filme. Com direito a drama, superação, cenas de violência e também dias de alegria. Os dois se conheceram em Arealva, cidade vizinha a Bauru, onde viveram a infância, a juventude e parte da vida adulta. Casaram cedo. Osni tinha 17 anos. Odete, apenas 13. “Nós fugimos”, ele conta, rindo.
Foi assim: Odete não queria mudar para um sítio com a família. Então, arrumou a mala e foi para a casa do namorado. Ele assustou, mas logo acolheu a quase moça. Deu certo. Estão juntos para o que der e vier. Têm quatro filhos e ajudam a criar os netos.
Nada foi fácil para os donos da única mercearia do Parque Colina Verde, bairro pacato de Bauru. “Passamos até fome, não tenho vergonha de falar”, relata Osni.
Ele trabalhou 18 anos na Santa Casa de Arealva até o dia em que não aguentou as cenas de descaso de um médico, brigou e foi dispensado. Depois, ficou três anos num abatedouro. Ao perder o emprego, veio para Bauru e abriu uma mercearia num cômodo emprestado pelo filho mais velho.
Aos poucos, Osni, 54 anos, e Odete, 50, mostraram que levam jeito para o comércio. Têm clientes cativos no Colina Verde. Vendem tudo: enlatados, arroz, feijão, bolachas, doces, verduras, pães, queijo, sorvete, bebidas...
Há oito anos, trabalham de domingo a domingo, o dia inteiro e parte da noite. Não tem feriado na mercearia Vem que Tem, um negócio familiar construído com muito suor.
Só que os dois nasceram para mostrar que são mesmo resistentes. A violência urbana chega até mesmo às ruas silenciosas do Colina Verde. O casal já foi assaltado sete vezes.
Osni chora ao lembrar de alguns desses momentos. Ele apanhou de um dos ladrões. Viu um dos assaltantes levar até o telefone sem fio.
“É de arrepiar. A gente nunca conviveu com essas coisas violentas, abrimos o comércio para sobreviver”, diz, enquanto segura as lágrimas.
No filme imaginário que poderia ter ele e a mulher como personagens principais, uma das cenas é quase inacreditável. Num dos assaltos, o ladrão entrou armado e, aos berros, pediu dinheiro ao dono da mercearia.
Com seu jeito humilde, ele disse que o homem roubaria um trabalhador, um comerciante que luta o dia inteiro para sustentar a família. Resultado: o assaltante abaixou a arma, chorou e saiu sem levar nada.
Ainda tem mais: Odete também teve reação parecida numa tarde em que viu uma arma apontada em sua direção. Ela disse ao assaltante que não se moveria. Perguntou se ele não acreditava em Deus e conversou com calma. Depois, o orientou a sair devagar, para não chamar a atenção da vizinhança. O ladrão foi embora com apenas um maço de cigarros.
De tanto ser roubado, Osni agora tem o hábito de ficar na porta da mercearia nas horas em que não há muito movimento. Teme pela filha adolescente, que chama de braço direito.
Nos últimos meses, por causa da atuação da polícia, o ar de tranquilidade predomina no local. Nenhum assalto foi registrado. Mas o medo continua.
Para o futuro, a expectativa é de dias recompensadores. É que o movimento da mercearia deve aumentar por causa da construção de dois grandes empreendimentos imobiliários no bairro, ambos da construtora Casa Alta.
Um deles, com 15 blocos de apartamentos, será entregue mês que vem e faz parte do programa Minha Casa Minha Vida, do governo federal.
O outro, ao lado, tem 12 blocos de apartamentos, está na fase inicial de construção.
Com mais gente no bairro, é certo que o negócio familiar vai progredir e talvez precise ser ampliado. O casal merece mesmo um final feliz.
Prefeitura estuda adequações
A preocupação dos moradores em relação à transformação do bairro Colina Verde foi levada à prefeitura, que respondeu por meio de uma nota divulgada pela assessoria de imprensa. “A Prefeitura está estudando as adequações necessárias a serem implantadas no bairro Colina Verde, em virtude do novo empreendimento imobiliário”, diz a assessoria. “A Diretoria de Sistema Viário da Emdurb analisará o local verificando a necessidade de intervenções viárias”, completa. Não foram divulgados dados sobre saúde e educação.
Até Chacrinha faz parte da trajetória
Com cerca de oito mil habitantes, Arealva, a cidade do casal formado por Osni e Odete de Godoy, já foi chamada de Distrito de Soturna, por causa de uma ilha próxima que tinha esse nome. Já fez parte do município de Iacanga. Em 1948, o distrito passou a município, com o nome de Arealva. O nome foi escolhido por causa da areia muito alva das praias da ilha Soturna. A fuga do casal provocou escândalo na época, mas a união depois ajudou a divulgar a cidade. Osni conta que ele e a mulher participaram do programa do Chacrinha, como casal mais novo.
Distribuidora de cerveja fica no bairro
Está no Colina Verde uma das filiais da Riobel, distribuidora de produtos da marca Schincariol, que tem sede no município Lauro de Freitas, na Bahia. A Riobel está localizada no km 345 da Marechal Rondon, uma das rodovias vizinhas ao bairro. Começou suas atividades em 2006 e tem área de cobertura ampla, que atinge mais de 40 cidades. O mesmo local já foi sede da antiga indústria de chocolates Lacta. A Riobel foi fundada em março de 1993 na Bahia.
Vielas levam o charme ao Novo Pagani
O Novo Jardim Pagani, bairro vizinho ao Colina Verde, tem como característica a existência de vielas que cortam seus grandes quarteirões. Elas facilitam o trânsito de pedestres e têm jardins e decoração mantidas pelos próprios moradores. São 18 vielas – algumas delas servem como exemplo pela forma como são cuidadas. A moradora Marlene Estevanato, por exemplo, plantou árvores e sempre manteve limpa a viela localizada perto de sua casa, inclusive com a ajuda de um jardineiro.
Falta de passarela incomoda a avó de Vitória e Leandro
A dona de casa Judite Cardoso, 68, gosta do silêncio que (ainda) marca as ruas do Colina Verde. De manhã, ela conta, dá para ouvir o som dos passarinhos na praça Adenor Costa, que ano passado ganhou um parquinho infantil instalado pela prefeitura. “Esse arvoredo aqui vale ouro. Como é gostoso isso aqui”, elogia a dona de casa.
É na praça que as crianças do bairro se encontram todo dia para brincar. Entre elas está a neta de Judite, Vitória, 6. Ela e o irmão, Leandro, 10, moram na casa da avó e têm a sorte de viver num bairro onde ainda é possível ter espaço ao ar livre para correr.
Os dois, no entanto, já são pequenas vítimas dos problemas estruturais urbanos. Para ir à escola, no Novo Jardim Pagani, bairro vizinho, precisam do transporte pago em peruas.
É que, apesar da proximidade, é perigoso atravessar a rodovia que separa os dois bairros, mesmo se isso for feito na companhia de adultos.
Para Judite, o que falta no bairro é a construção de uma passarela que permita a travessia sem perigos. “Por que não constroem? Custa tanto assim? Gastam dinheiro com tanta coisa...”, afirma, num único reparo à região onde mora há 25 anos, quando o Colina Verde era um bairro ainda jovem.
Os problemas de acesso aos bairros localizados às margens da rodovia Bauru-Iacanga já provocaram acidentes, protestos de moradores e cobranças por parte do Ministério Público.
A Secretaria Estadual dos Transportes prevê para o segundo semestre deste ano o início da licitação para a obra de duplicação da rodovia.
O Colina Verde foi criado na administração do ex-prefeito Osvaldo Sbeghen. Vai completar 30 anos este ano. A passarela reivindicada por Judite, que pensa o tempo todo na segurança dos dois netos, seria um presente e tanto.
Meu bairro
Manu Saggioro, cantora e guitarrista
Pode ser legal ter mais gente
Mudei para o Colina Verde, com minha família, quando tinha 13 anos. Moro numa chácara que fica na última rua do bairro. Por mim, viveria até mais distante da cidade. Mas é legal também viver numa chácara e, ao mesmo tempo, dentro da área urbana.
Desde quando mudamos para cá, o Colina Verde é o mesmo, com o mesmo número de casas. As mudanças só começaram há um ano, com a construção dos prédios. Ainda é um bairro pequeno e tranquilo. Onde moro é também o Espaço Gaya, um centro terapêutico, onde fazemos palestras e oficinas. Com mais gente no bairro, pode ficar bem mais legal.
Como penso bastante sobre as transformações do mundo, também vejo o lado positivo de viver a experiência, de sentir exatamente o que leio sobre o crescimento das cidades, o aumento da população, as transformações das regiões.
Sorteio será em fevereiro
A Prefeitura de Bauru marcou para o dia 12 de fevereiro o segundo sorteio de 1.130 unidades residenciais do programa Minha Casa Minha Vida. Os 240 apartamentos do Mirante da Colina estão incluídos neste sorteio.
316 era o número de casas do Colina Verde quando o bairro foi inaugurado, na década de 1980.
Empresa vem do Paraná
A construtora Casa Alta, responsável pelos empreendimentos imobiliários no Colina Verde, foi fundada em 1978 em Curitiba (PR). Desde 1996, atua na construção de condomínios fechados.
2 é o número de quartos nos apartamentos no Residencial Mirante da Colina.
Estela coordena grupo
O Grupo Multissetorial que cuida do projeto habitacional em Bauru é coordenado pela vice-prefeita Estela Almagro (PT) e composto por representantes do gabinete, secretarias, e Caixa Federal.
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