Do preço da fruta à quantidade de parreiras, é possível enumerar as mudanças que marcaram a produção de uva na cidade nas últimas décadas de acordo com Rafael Sibinel, 88 anos, tradicional produtor do Caxambu.
Falta de mão de obra para o campo é consequência negativa da modernidade na opinião dele. Já vender as uvas no portão de casa e, principalmente, para turistas paulistanos, não só é motivo a ser comemorado como o deixa impressionado. “Antigamente a gente carregava até dois caminhões por dia e mandava para o Mercadão da Cidade de São Paulo. Hoje eles vêm buscar minha uva aqui”, compara Rafael.
E como uma notícia boa atrai outra, em fins de semana de realização da tradicional Festa da Uva do Caxambu - que neste ano chega em sua 78ª edição - as vendas aumentam pelo menos 20%. “Aos domingos a gente chega a vender mais de 50 caixas”, conta o produtor.
Na principal avenida do bairro, a Humberto Cereser, não falta cliente mesmo com a concorrência acirrada, já que vários produtores têm barracas montadas em diferentes pontos.
Maria Aparecida Guimarães Donati, 69, começou vendendo as uvas com o marido, Alcides Donati, 73, em um estaleiro no chão. Hoje tem uma barraca bem estruturada e comercializa a média de 50 caixas diárias, de quinta a domingo. “Em dias de festa aumenta para 70, pelo menos.”
Os produtores da fruta são, indiretamente, os mais beneficiados com o evento, mas no auge da safra acaba não sobrando tempo para participar. “O que a gente tenta é aproveitar o almoço, mas fica difícil estar mais envolvido”, conta Maria Aparecida.
Rafael já participou mais ativamente, inclusive doando caixas de uva para serem comercializadas no evento. Hoje lamenta que certas tradições mudem com o tempo. “Quando eu era moço trabalhava bastante com meus pais na festa e a gente comemorava as boas safras. Hoje meus filhos não entendem nada de lavoura, cada um seguiu seu caminho.”
Na ativa / Os tempos são outros, mas de geração a geração, a Festa da Uva do Caxambu se mantém. E deve ser assim pelos próximos anos, se depender de jovens como os irmãos Luana e Lucas Balestrin, 16 e 15 anos, respectivamente. Eles são voluntários da organização do evento há três anos, junto com os pais, Luciane Roveri Balestrin, 43, dona de casa, e Osvaldir Balestrin, 45, autônomo.
Na quinta-feira, quando parte dos voluntários começou a colocar a mão na massa, Luana cortava frangos e Lucas mexia uma enorme panela de polenta. “Fui promovido, porque não é qualquer um que chega na polenta”, brinca. “Tenho amigas que até se assustam quando falo que trabalho na festa, mas faço porque realmente gosto disso”, diz o garoto.
Para a mãe dos adolescentes, a sensação é de dever cumprido. “Acho que eles estão bem encaminhados, se tornarão adultos com valores de vida”, avalia, acrescentando que o caçula da família, Daniel, de 11 anos, também faz parte do time de voluntários, que soma mais de 250 pessoas segundo Amarildo Martins, presidente da comissão organizadora da atual edição do evento.