Walter Casagrande Júnior
Colunista do DIÁRIO
Claro que fiquei muito triste com a morte do Sócrates, mas, de forma até egoísta, o sentimento predominante é de alívio. Isso porque tive a chance de falar para o cara, olhando bem nos seus olhos, o quanto gosto dele. Precisava me sentar à mesa com o Magrão, reconhecer a importância que ele teve na minha história e recordar momentos especiais que vivemos juntos. Para mim, era algo fundamental.
Nós passamos muitos anos sem nos falar. Nunca brigamos, mas havíamos nos separado em decorrência da vida. Ficaram uma distância e alguns ruídos na relação, por conta de visões diferentes sobre algumas questões. Mas nunca deixei de amá-lo e precisava lhe falar isso antes de sua partida. Felizmente, essa oportunidade surgiu por conta das internações anteriores. Se não tivesse acontecido, agora estaria carregando um peso insuportável.
Parceria/ Sem dúvida, foi meu maior parceiro no futebol. Quando eu era juvenil no Corinthians, eu o tinha como ídolo e costumava ficar ao lado do campo para vê-lo nos treinamentos do time profissional. Depois, em 1981, fui jogar na Caldense e houve um amistoso lá contra a seleção brasileira. Fiquei ansioso, não sabia se ele me reconheceria. Mas o Magrão se lembrou de mim e até tiramos fotos no campo.
No ano seguinte, voltei para o Corinthians e fiz minha estreia contra o Guará sem a presença do Sócrates. No segundo jogo, ele também não estava. Só fomos jogar juntos no terceiro, na vitória sobre o Fortaleza, com três gols do Zenon e um do Sócrates. Eu participei de todos os gols e percebi que daria liga .
A partir dali, formamos uma dupla memorável, com tabelinhas e troca de passes em que antecipávamos o pensamento do outro. As minhas características combinavam com as dele, nós nos completávamos. Podíamos até perder, o que faz parte do jogo, mas poucas vezes não rendemos bem juntos.
Cúmplices/ Nós também nos identificávamos no aspecto político. Foi sensacional ter vivido a Democracia Corintiana a seu lado, lutado por eleições diretas para presidente e participado da fundação do PT. Como jogadores, aproveitamos a popularidade para passar mensagens contra a ditadura militar.
Compartilhávamos também da dependência química: tive problemas com drogas e ele, com álcool. Pagamos caro por isso. Sócrates não sobreviveu, mas parte em paz. Você deixou uma história fantástica, parceiro, e ajudou a tornar o mundo um pouco melhor. Tínhamos uma estreita aliança... Vou jogar meu anel fora. Fazer o que com um anel pela metade?
Opinião
Gilvan Ribeiro, editor de Esportes do DIÁRIO
Jamais haverá um jogador tão maluco e genial
Apesar do nome de filósofo, Sócrates desafiava a lógica, com passes de calcanhar, lançamentos por brechas invisíveis, dribles improváveis e finalizações impossíveis. Mas sua importância extrapola – e muito – o futebol.
Principal líder da Democracia Corintiana, não só revolucionou as relações entre dirigentes e jogadores, ao dar a estes voz ativa nas decisões relativas ao time, por meio de voto, como influenciou a política nacional. Engajou-se na campanha “Diretas-Já” por eleições para presidente da República, a tal ponto de prometer, num comício, rejeitar proposta milionária da Itália e permanecer no Brasil caso a Emenda Dante de Oliveira fosse aprovada.
Assim, influenciou toda uma geração de jovens a segui-lo nesse ideal. As mensagens passadas por meio de faixas na cabeça ou em camisetas tinham grande penetração entre a garotada, embora pessoas mais velhas também o admirassem.
Por sua causa, muita gente virou a casaca e passou a torcer pelo Corinthians. Alguns não chegaram a tanto, mas nutriam irresistível simpatia pelo time da Democracia Corintiana, numa época em que a maioria dos jogadores se limitava a dizer o óbvio e evitava se expor.
Além disso, era um agitador cultural, sempre metido em produções teatrais, pinturas de quadros, composições de músicas, poesias e delírios etílicos variados.
Tive o privilégio de conhecer de perto meu ídolo da adolescência e descobrir que era verdadeiro e genuíno. Possuía uma admirável vocação para contrariar o sistema. Assim, investia em projetos culturais sem apelo comercial, fadados ao prejuízo. Havia quem visse nisso sinal de fracasso. Mas a intenção não era ganhar dinheiro.
Devo admitir que Sócrates influenciou na minha formação. Já admirei muitos craques, mas só amei um: o Doutor.
Sócrates e Casagrande disputaram a Copa do Mundo de 1986, no México
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