Fábio Minhão, ligadão em rock and roll, desde um "Domingo no Parque", como se
define, nasceu em São Paulo, há 38 anos, Ex-jornaleiro, ex-operador de áudio e
vídeo, ex-montador de móveis. Nenhuma formação acadêmica. Leia
livros!
Vigésima Quarta Hora
A lua ainda estava
alta na noite da quarta-feira, enquanto eu ouvia o barulho da roleta girar,
esperando a partida do coletivo circular. Não era difícil perceber que as
pessoas estavam cansadas. O fim das 24 horas do dia se aproximava, era
único!
Ao menos para mim, com meus olhos de quem não veio e nem foi, em
trajes bonitos, elegantes, sensuais e modernos. Não carregava livros, mochilas,
sacolas, pacotes ou embrulhinhos. Eu estava, apesar de silencioso, presente. E
como não observarmos as transformações que causamos uns aos outros? Alguém que
canta bêbado, alguém que comemora o resultado do futebol, alguém que teve prova,
outro que namora, todos que se espremem e alguns que vagam, sonhando com
formicida ou cianureto. Falando para quem não quer ouvir, escutando o que não
querem escutar. Meu perfume amadeirado e frugal poderia ser sentido por narinas
inocentes ou por corações sangrando.
Vi quando o cidadão cruzou a catraca
do ônibus. Sentou-se no último lugar que havia disponível. No acento ao lado do
meu, no fundo do veículo. Era alto, magro, branco. Trajava terno e gravata
escuros, camisa que me pareceu ser azul ou cinza. O rosto? Cansado, para quem
deveria ter entre 25 e 30 anos, e no lugar do branco dos olhos, vi uma cor
amarelo-ovo e umas olheiras que me trouxeram à mente a obediência cega dos
cadáveres. Acomodou-se e, com educação, perguntou: “conhece a Avenida dos
Assalariados?”.
Respondi e acrescentei, a contra gosto, sendo bem claro
e objetivo, que o ônibus passava por ela. Procurei ficar quieto, o ônibus
lotava. Ele insistiu, perguntou se eu conhecia a farmácia... Não me recordo o
nome. Eu disse que não!, não conhecia. O ônibus partiu e uma chuva fina começou
a molhar o vidro da janela. Procurei me distrair, olhando atentamente o brilho
dos faróis dos carros que cruzavam a rua movimentada. Tive a sensação que ele
queria dizer mais alguma coisa.
Continuei mudo, concentrado em mim mesmo.
Não querendo falar, não querendo escutar, não querendo pensar. As pessoas se
acotovelavam.
A chuva se intensificou. “Sou segurança, os caras me fazem
trabalhar das duas às onze da noite, em um local e ligam para eu ir a outro,
trabalhar de meia noite até amanhã, às oito horas da manhã, complicado cobrir
faltas!” Tentei me manter correto e indiferente.
Atento sempre a lógica.
“Eles pagam horas extras?” Perguntei, mesmo sabendo, que dinheiro não é tudo
para um homem, eu quase ria. Os olhos amarelos de icterícia me olharam atentos.
Sua resposta veio sem pressa, como se houvesse compreensão e interesse de minha
parte. “Dinheiro eu preciso. Ganhei a guarda do meu menino. Minha mulher me
abandonou. Era uma mulher sem caminho. Meu filho fez dois anos, sábado
passado.
Engraçado, cara, que ele já chama minha mãe de mamãe” Quase
gargalhei! Tornava-se incontrolável. Percebi que era um pai orgulhoso, atencioso
e que tinha uma família que o apoiava. Isso não me interessava. Fui à busca da
mágoa, da infelicidade e do desgosto. Quem era aquela mulher? Uma mulher infiel?
A conversa começava a me interessar. Perguntei: “poxa, sua ex-esposa perdeu a
guarda do menininho?”
Demonstrei interesse e fui cuidadoso na escolha
das palavras, para tocar o coração do rejeitado. “Às vezes, eu chego tão cansado
que ele deita sobre meu corpo, anda sobre meu corpo, enquanto durmo, e eu nem
acordo! De tão cansado.” Sua resposta foi evasiva. Eu cheguei a ver ali, um
sonhador. Confesso ter ficado frustrado. Não era esse o assunto que eu buscava
encontrar. Foi quando, estranhamente, quase como uma confissão de culpa e perda,
acrescentou. “Ela é usuária de crack, foi morar na rua, abandonou familiares,
filho e marido.” Sua resposta foi uma canção para meus ouvidos. Ele preferiu
ficar calado (ufa!), eu também.
Que surpreendente, o amor. Nunca sabemos.
Pode surgir inesperado, em uma loja de calçados; um amor afetuoso nos bancos de
um jardim florido, como nos bons tempos românticos, com violão dedilhado e voz
afetuosa; um motelzinho de beira estrada com iluminação de neon suave e canções
de flashback, na única rádio que, por sorte ou azar, conseguimos sintonizar; um
romantismo tipo clássico, de propaganda de televisão, como uma batidinha na
traseira do carro, em uma noite de verão; um delicado carinho nos cabelos na
derrota vergonhosa do seu time, quem sabe? Quem sabe?
O fim pode ser
simples, daqueles que vão acabando e acabando, acabam. Sem questões para quando
chega ou para quando vai embora. Leve, leve, como sonhamos.
Trágicos,
doentios, assassinos, cômicos, suicidas, suplicantes. Casais que se separam
porque ele, advogado, 37 anos, trocou os carinhos dela, mulher dedicada e
amorosa, pelas pernas peludas do assessor de imprensa do 7º andar. Amores que se
vão e que, mesmo assim, não há separação. Seguem perpetuando uma solidão que
amanhece e anoitece. Amantes que, mesmo antes do derradeiro beijo do amor, se
tornam trilhos que nem sequer vão ao mesmo destino, impossível de serem
novamente agraciados pela labiríntica locomotiva do amor.
Amores que se
acabam antes mesmo de começar. Ela, estudante de medicina por imposição dos
pais, médicos. Ele, apaixonado por filmes de terror, solitário, cumprindo pena
comunitária no hospital público em que ela, por desejo do noivo, também médico,
iniciou seus trabalhos como estagiária. O amor tem sua lógica condicionada, tem
seus freios anti-românticos. Suas regras que desmentem aquilo tudo que o padre
falou.
Ainda me lembro. Tive uma ótima oportunidade de participar de suas
vidas. Guardo no meu coração, seus olhinhos infantis. Parece que foi há dez
décadas, ou nem tanto assim. Ele era chamado por ela de “meu trovão”. Ele a
chamava de “minha delicada”. Foram casados, amantes, educaram filhos, criaram o
futuro. Vieram da província de Guangdong, China. Comerciaram frutas, flores,
hortaliças, aves, carnes, legumes.
O amor dele pelos pássaros, era o que
a incomodava. Ling sentia que seu amor voava e que Lei Kong, já não era dela. Em
um surto adolescente de zanga de abandono e amor rejeitado, abriu as gaiolas,
soltou os pássaros, incentivou a revoada, assistiu a beleza da fuga.
Pintassilgo, curruíra, bigodinho, curió, pássaro-preto, sanhaço, sábia.
O
trovão, surpreendido, estrondou, se encheu de cólera. E como nunca,
transfigurou-se. Primeiro esmurrou paredes, xingou gerações, gritou sozinho,
quebrou gaiolas.
Depois chorou, por meses; às vezes baixinho, no leito
conjugal. Às vezes aos berros, durante banhos que nunca tinham fim. Ling, a
esposinha devota, se arrependera e pedira o perdão. Mas, e o porquê? A dúvida
que nunca abandona a ira. Ele decidiu! Tentar esquece!
Esse era o
caminho. Não mais rugiu e silenciou. Assentou tijolos, ergueu paredes feito
jaulas, pintou-as em cores alegres e coloridas. Instalou grades no lugar do que
pareceu ser uma pequena janela, e, súbito para ele também, decidiu
trancafiá-la.
Não era uma vingança, ele não saberia explicar. Apenas uma
lição. Um corretivo para acalentar a aflição. Reencontrar uma afinação de forma
renovada. Dar ao amor a chance do livre reencontro.
Esperando compreensão
e clemência, a delicada Ling, silenciosa, disse que sim, mesmo tudo parecendo
ser uma infantil brincadeira feroz do velho Kong. Assim, os ponteiros dos
relógios correram. Folhas caíram. Os dias passaram. Tão rápido como doces dias
de férias. Naquele recanto distante, não foram doces os dias. Então, foi ela
quem esmurrou paredes, xingou gerações e gritou alto sozinha. Não quebrou
gaiolas! A ingênua e frágil Ling não tivera forças.
O senhor Lei Kong foi
encontrado nos fundos de sua pequena propriedade rural. À sombra de um frondoso
cajueiro, aquecido por um tímido solzinho quente do mês de agosto. Repetindo,
sucessivamente, ouvir o canto incessante de pássaros raros de sua pobre infância
chinesa. No silêncio pacificador daquela chacarazinha distante, seu estado era
precário. Não respondia a perguntas e expressava poucos
sentimentos.
Paralisado, olhos esbugalhados, atento aos pássaros
cantantes de sua mente doentia.
Encontrar a mãe com vida era tudo que,
Lurdes, esperava. Depois de infinitas chamadas internacionais mal sucedidas. Seu
pranto escureceu seus olhos e o pânico gelou seu coração. No canto escuro, bem
ao fundo daquela casinha, se é que se pode denominá-la assim, Ling estava morta.
Marcas do desespero nas paredes e duas garrafas de vinho estilhaçadas também
eram vistos. Terrivelmente, entretanto, as chaves estavam atrás do respiradouro
que conferia alguma iluminação ao quartinho. Portanto, ao alcance das mãos da
senhora Ling. Bastaria um salto. O salto para a vida. Causa mortis: inanição
profunda.
Populares, depois de ouvirem, aparvalhados e levianos como
sempre, versões diversas da historia criminosa, disseram que tudo teria
acontecido por culpa do amor.
Estaríamos, eu e vocês, juntos
transformando o amor no vilão cruel dos nossos tempos?
Seria ele o cão
dos nossos dias? Seria...? Estaríamos nós...? Eu aposto... Cheguei a esquecer da
chuva, da crakeira, do menininho, da Avenida dos Assalariados e do cobrador que
foi quem deu as dicas, ao passageiro, sobre em qual ponto descer. Antes, ele
ainda optou por descer um ponto mais a frente, daquele mais próximo a farmácia
que procurava. Tentou estender a conversa. “Eles não sabem que horas eu deixei a
outra loja, melhor andar e espairecer um pouco, é complicado!”, “estou há uma
semana aqui em São Paulo e estou com registro em carteira. Está tudo certinho,
já!” Foram as últimas coisas, pouco importantes, que ainda tive que
ouvir.
Meu ponto chegou, dez minutos depois. Da chuva, só restava o ar
úmido e as gotas que caiam das árvores. A luz da lua se escondia atrás de alguma
grande nuvem.
Entrei rapidamente em casa, olhei no espelho, meus olhos,
antes azuis-turquesa, estavam branco-azulados. Como os olhos dos que não vêem a
luz. Minha boca salivava como uma grande boca bovina. Eu sentia náuseas e
ânsias. Meus braços eram maiores, longos. Minhas unhas grandes e sujas. Sangue
escorria das minhas narinas barulhentas como fuças suínas. Os cães latiam. Minha
pele envelhecida se descolara das minhas carnes. A vigésima quarta hora chegara.
Meu corpo cheirava como se fossem fossas abertas. Então eu, o Diabo, percebi que
sempre haverá algo ou alguém para lembrar aquilo que eu quero
esquecer.
Entretanto, assim podemos esperar, esse mundo...será meu!
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