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Vigésima Quarta Hora

para Ronnie James Dio

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Fábio Minhão, ligadão em rock and roll, desde um "Domingo no Parque", como se define, nasceu em São Paulo, há 38 anos, Ex-jornaleiro, ex-operador de áudio e vídeo, ex-montador de móveis. Nenhuma formação acadêmica. Leia livros!

Vigésima Quarta Hora

A lua ainda estava alta na noite da quarta-feira, enquanto eu ouvia o barulho da roleta girar, esperando a partida do coletivo circular. Não era difícil perceber que as pessoas estavam cansadas. O fim das 24 horas do dia se aproximava, era único!

Ao menos para mim, com meus olhos de quem não veio e nem foi, em trajes bonitos, elegantes, sensuais e modernos. Não carregava livros, mochilas, sacolas, pacotes ou embrulhinhos. Eu estava, apesar de silencioso, presente. E como não observarmos as transformações que causamos uns aos outros? Alguém que canta bêbado, alguém que comemora o resultado do futebol, alguém que teve prova, outro que namora, todos que se espremem e alguns que vagam, sonhando com formicida ou cianureto. Falando para quem não quer ouvir, escutando o que não querem escutar. Meu perfume amadeirado e frugal poderia ser sentido por narinas inocentes ou por corações sangrando.

Vi quando o cidadão cruzou a catraca do ônibus. Sentou-se no último lugar que havia disponível. No acento ao lado do meu, no fundo do veículo. Era alto, magro, branco. Trajava terno e gravata escuros, camisa que me pareceu ser azul ou cinza. O rosto? Cansado, para quem deveria ter entre 25 e 30 anos, e no lugar do branco dos olhos, vi uma cor amarelo-ovo e umas olheiras que me trouxeram à mente a obediência cega dos cadáveres. Acomodou-se e, com educação, perguntou: “conhece a Avenida dos Assalariados?”.

Respondi e acrescentei, a contra gosto, sendo bem claro e objetivo, que o ônibus passava por ela. Procurei ficar quieto, o ônibus lotava. Ele insistiu, perguntou se eu conhecia a farmácia... Não me recordo o nome. Eu disse que não!, não conhecia. O ônibus partiu e uma chuva fina começou a molhar o vidro da janela. Procurei me distrair, olhando atentamente o brilho dos faróis dos carros que cruzavam a rua movimentada. Tive a sensação que ele queria dizer mais alguma coisa.

Continuei mudo, concentrado em mim mesmo. Não querendo falar, não querendo escutar, não querendo pensar. As pessoas se acotovelavam.

A chuva se intensificou. “Sou segurança, os caras me fazem trabalhar das duas às onze da noite, em um local e ligam para eu ir a outro, trabalhar de meia noite até amanhã, às oito horas da manhã, complicado cobrir faltas!” Tentei me manter correto e indiferente.

Atento sempre a lógica. “Eles pagam horas extras?” Perguntei, mesmo sabendo, que dinheiro não é tudo para um homem, eu quase ria. Os olhos amarelos de icterícia me olharam atentos. Sua resposta veio sem pressa, como se houvesse compreensão e interesse de minha parte. “Dinheiro eu preciso. Ganhei a guarda do meu menino. Minha mulher me abandonou. Era uma mulher sem caminho. Meu filho fez dois anos, sábado passado.

Engraçado, cara, que ele já chama minha mãe de mamãe” Quase gargalhei! Tornava-se incontrolável. Percebi que era um pai orgulhoso, atencioso e que tinha uma família que o apoiava. Isso não me interessava. Fui à busca da mágoa, da infelicidade e do desgosto. Quem era aquela mulher? Uma mulher infiel? A conversa começava a me interessar. Perguntei: “poxa, sua ex-esposa perdeu a guarda do menininho?”

Demonstrei interesse e fui cuidadoso na escolha das palavras, para tocar o coração do rejeitado. “Às vezes, eu chego tão cansado que ele deita sobre meu corpo, anda sobre meu corpo, enquanto durmo, e eu nem acordo! De tão cansado.” Sua resposta foi evasiva. Eu cheguei a ver ali, um sonhador. Confesso ter ficado frustrado. Não era esse o assunto que eu buscava encontrar. Foi quando, estranhamente, quase como uma confissão de culpa e perda, acrescentou. “Ela é usuária de crack, foi morar na rua, abandonou familiares, filho e marido.” Sua resposta foi uma canção para meus ouvidos. Ele preferiu ficar calado (ufa!), eu também.

Que surpreendente, o amor. Nunca sabemos. Pode surgir inesperado, em uma loja de calçados; um amor afetuoso nos bancos de um jardim florido, como nos bons tempos românticos, com violão dedilhado e voz afetuosa; um motelzinho de beira estrada com iluminação de neon suave e canções de flashback, na única rádio que, por sorte ou azar, conseguimos sintonizar; um romantismo tipo clássico, de propaganda de televisão, como uma batidinha na traseira do carro, em uma noite de verão; um delicado carinho nos cabelos na derrota vergonhosa do seu time, quem sabe? Quem sabe?

O fim pode ser simples, daqueles que vão acabando e acabando, acabam. Sem questões para quando chega ou para quando vai embora. Leve, leve, como sonhamos.

Trágicos, doentios, assassinos, cômicos, suicidas, suplicantes. Casais que se separam porque ele, advogado, 37 anos, trocou os carinhos dela, mulher dedicada e amorosa, pelas pernas peludas do assessor de imprensa do 7º andar. Amores que se vão e que, mesmo assim, não há separação. Seguem perpetuando uma solidão que amanhece e anoitece. Amantes que, mesmo antes do derradeiro beijo do amor, se tornam trilhos que nem sequer vão ao mesmo destino, impossível de serem novamente agraciados pela labiríntica locomotiva do amor.

Amores que se acabam antes mesmo de começar. Ela, estudante de medicina por imposição dos pais, médicos. Ele, apaixonado por filmes de terror, solitário, cumprindo pena comunitária no hospital público em que ela, por desejo do noivo, também médico, iniciou seus trabalhos como estagiária. O amor tem sua lógica condicionada, tem seus freios anti-românticos. Suas regras que desmentem aquilo tudo que o padre falou.

Ainda me lembro. Tive uma ótima oportunidade de participar de suas vidas. Guardo no meu coração, seus olhinhos infantis. Parece que foi há dez décadas, ou nem tanto assim. Ele era chamado por ela de “meu trovão”. Ele a chamava de “minha delicada”. Foram casados, amantes, educaram filhos, criaram o futuro. Vieram da província de Guangdong, China. Comerciaram frutas, flores, hortaliças, aves, carnes, legumes.

O amor dele pelos pássaros, era o que a incomodava. Ling sentia que seu amor voava e que Lei Kong, já não era dela. Em um surto adolescente de zanga de abandono e amor rejeitado, abriu as gaiolas, soltou os pássaros, incentivou a revoada, assistiu a beleza da fuga. Pintassilgo, curruíra, bigodinho, curió, pássaro-preto, sanhaço, sábia.
O trovão, surpreendido, estrondou, se encheu de cólera. E como nunca, transfigurou-se. Primeiro esmurrou paredes, xingou gerações, gritou sozinho, quebrou gaiolas.

Depois chorou, por meses; às vezes baixinho, no leito conjugal. Às vezes aos berros, durante banhos que nunca tinham fim. Ling, a esposinha devota, se arrependera e pedira o perdão. Mas, e o porquê? A dúvida que nunca abandona a ira. Ele decidiu! Tentar esquece!

Esse era o caminho. Não mais rugiu e silenciou. Assentou tijolos, ergueu paredes feito jaulas, pintou-as em cores alegres e coloridas. Instalou grades no lugar do que pareceu ser uma pequena janela, e, súbito para ele também, decidiu trancafiá-la.

Não era uma vingança, ele não saberia explicar. Apenas uma lição. Um corretivo para acalentar a aflição. Reencontrar uma afinação de forma renovada. Dar ao amor a chance do livre reencontro.

Esperando compreensão e clemência, a delicada Ling, silenciosa, disse que sim, mesmo tudo parecendo ser uma infantil brincadeira feroz do velho Kong. Assim, os ponteiros dos relógios correram. Folhas caíram. Os dias passaram. Tão rápido como doces dias de férias. Naquele recanto distante, não foram doces os dias. Então, foi ela quem esmurrou paredes, xingou gerações e gritou alto sozinha. Não quebrou gaiolas! A ingênua e frágil Ling não tivera forças.

O senhor Lei Kong foi encontrado nos fundos de sua pequena propriedade rural. À sombra de um frondoso cajueiro, aquecido por um tímido solzinho quente do mês de agosto. Repetindo, sucessivamente, ouvir o canto incessante de pássaros raros de sua pobre infância chinesa. No silêncio pacificador daquela chacarazinha distante, seu estado era precário. Não respondia a perguntas e expressava poucos sentimentos.

Paralisado, olhos esbugalhados, atento aos pássaros cantantes de sua mente doentia.

Encontrar a mãe com vida era tudo que, Lurdes, esperava. Depois de infinitas chamadas internacionais mal sucedidas. Seu pranto escureceu seus olhos e o pânico gelou seu coração. No canto escuro, bem ao fundo daquela casinha, se é que se pode denominá-la assim, Ling estava morta. Marcas do desespero nas paredes e duas garrafas de vinho estilhaçadas também eram vistos. Terrivelmente, entretanto, as chaves estavam atrás do respiradouro que conferia alguma iluminação ao quartinho. Portanto, ao alcance das mãos da senhora Ling. Bastaria um salto. O salto para a vida. Causa mortis: inanição profunda.

Populares, depois de ouvirem, aparvalhados e levianos como sempre, versões diversas da historia criminosa, disseram que tudo teria acontecido por culpa do amor.

Estaríamos, eu e vocês, juntos transformando o amor no vilão cruel dos nossos tempos?

Seria ele o cão dos nossos dias? Seria...? Estaríamos nós...? Eu aposto... Cheguei a esquecer da chuva, da crakeira, do menininho, da Avenida dos Assalariados e do cobrador que foi quem deu as dicas, ao passageiro, sobre em qual ponto descer. Antes, ele ainda optou por descer um ponto mais a frente, daquele mais próximo a farmácia que procurava. Tentou estender a conversa. “Eles não sabem que horas eu deixei a outra loja, melhor andar e espairecer um pouco, é complicado!”, “estou há uma semana aqui em São Paulo e estou com registro em carteira. Está tudo certinho, já!” Foram as últimas coisas, pouco importantes, que ainda tive que ouvir.

Meu ponto chegou, dez minutos depois. Da chuva, só restava o ar úmido e as gotas que caiam das árvores. A luz da lua se escondia atrás de alguma grande nuvem.

Entrei rapidamente em casa, olhei no espelho, meus olhos, antes azuis-turquesa, estavam branco-azulados. Como os olhos dos que não vêem a luz. Minha boca salivava como uma grande boca bovina. Eu sentia náuseas e ânsias. Meus braços eram maiores, longos. Minhas unhas grandes e sujas. Sangue escorria das minhas narinas barulhentas como fuças suínas. Os cães latiam. Minha pele envelhecida se descolara das minhas carnes. A vigésima quarta hora chegara. Meu corpo cheirava como se fossem fossas abertas. Então eu, o Diabo, percebi que sempre haverá algo ou alguém para lembrar aquilo que eu quero esquecer.
Entretanto, assim podemos esperar, esse mundo...será meu!

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