Philip Milton Roth (Newark, Nova Jersey, 19 de março de 1933), norte-americano
de origem judaica, é um dos maiores escritores da atualidade. Ganhou o prêmio
Pulitzer por “Pastoral Americana” em 1997 e tem no currículo prêmios como
National Medal of Arts e PEN/Faulkner. A Companhia das Letras lançou
recentemente “A Humilhação”. O “Vale a pena ler de novo” desta semana traz um
trecho de “Indignação”, disponível pela mesma editora. Leia
livros!
Sob o efeito da morfina
Cerca de dois meses
e meio depois que as bem treinadas divisões da Coreia do Norte, armadas pelos
comunistas soviéticos e chineses, atravessaram o paralelo 38 e penetraram na
Coreia do Sul em 25 de junho de 1950, dando início às agonias da Guerra da
Coreia, eu entrei para a Robert Treat, uma pequena universidade no centro de
Newark que devia seu nome ao homem que fundou a cidade no século 17. Fui a
primeira pessoa de nossa família a entrar para a universidade. Nenhum de meus
primos tinha ido além do ginásio, nem meu pai ou seus três irmãos ha viam
completado o primário. “Trabalhei para ganhar a vida”, disse-me meu pai, “desde
os dez anos”.
Ele era açougueiro e eu fazia as entregas de bicicleta no
bairro durante todo o tempo em que cursei o ginásio, exceto quando jogava
beisebol e nas tardes em que participava das disputas com outros colégios como
membro da equipe de debatedores. Praticamente desde o dia em que deixei o
açougue – onde vinha trabalhando para ele sessenta horas por semana desde a
formatura no ginásio, em janeiro, até o início das aulas na universidade, em
setembro –, quase a partir do dia em que comecei a frequentar a Robert Treat,
meu pai passou a ter medo de que eu morresse. Talvez seu medo tivesse algo a ver
com a guerra, na qual as Forças Armadas dos Estados Unidos haviam entrado
imediatamente, sob os auspícios da ONU, para auxiliar o exército sul-coreano,
mal treinado e mal equipado; talvez tivesse a ver com as pesadas perdas sofridas
por nossas tropas diante do poder de fogo dos comunistas, e seu receio de que,
se o conflito durasse tanto quanto a Segunda Guerra Mundial, eu seria recrutado
pelo exército para lutar e morrer nos campos de batalha da Coreia como meus
primos Abe e Dave haviam morrido durante a Segunda Grande Guerra. Ou talvez o
medo se devesse a suas preocupações financeiras: no ano anterior, com a abertura
do primeiro supermercado do bairro a poucas quadras do açougue kosher de nossa
família, as vendas começaram a cair sem parar. Isso se deveu ao fato de que a
seção de carnes e de aves do supermercado oferecia preços inferiores aos de meu
pai, mas também ao declínio geral no número de famílias que, após a guerra, se
davam ao trabalho de obedecer às normas alimentares judaicas, comprando carne e
galinhas numa loja certificada por rabinos e cujo proprietário era membro da
Federação dos Açougueiros Kosher de New Jersey.
Ou, quem sabe, seu medo
por mim começou como um medo por ele próprio, porque, aos cinquenta anos, tendo
gozado de excelente saúde a vida toda, aquele robusto homenzinho passou a exibir
uma tosse sufocante e persistente que, apesar das preocupações que causava em
minha mãe, não o impedia de manter um cigarro aceso no canto da boca o dia
inteiro. Seja qual for a causa ou combinação de causas que alimentaram a mudança
abrupta num comportamento paterno até então benevolente, ele manifestava seu
medo me perseguindo noite e dia para saber do meu paradeiro. Onde é que você
foi? Por que não estava em casa? Como posso saber onde você está quando vai para
a rua? Você é um rapaz com um futuro magnífico à sua frente, como posso saber se
não está se metendo em lugares onde pode acabar sendo morto?
As perguntas
eram ridículas porque, desde os tempos do ginásio, eu era um estudante prudente,
responsável, diligente, cioso, com notas excepcionais, que só saía com as moças
mais bem-comportadas; além disso, era um debatedor dedicado e um jogador de
beisebol capaz de ocupar várias posições em torno das bases, aceitando de bom
grado as normas de conduta aplicadas aos adolescentes da vizinhança e do
colégio. As perguntas eram também irritantes – como se o pai com quem eu tinha
convivido tão de perto durante todos aqueles anos, praticamente crescendo ao
lado dele no açougue, não tivesse a mínima ideia de quem era seu filho e de como
ele era.
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