Nick Hornby, nascido em Maidenhead, Inglaterra, em 17 de abril de 1957, é um
nomes mais badalados da literatura contemporânea. Em 1983, iniciou a carreira
como jornalista e escritor freelancer. Em 1992, lançou seu primeiro livro,
“Febre de Bola”, espécie de autobiografia sobre a relação do autor com o
Arsenal, time inglês pelo qual é fanático. Após o sucesso com o livro, Hornby
começou a publicar seus artigos no “The Sunday Times”, “Time Out”, “Times
Literary Supplement” e na “The New Yorker”. Seu segundo trabalho, “Alta
Fidelidade”, foi publicado em 1995. O romance sobre um colecionador de discos
neurótico e seus relacionamentos fracassados foi transformado em filme em 2000,
estrelando John Cusack e fez com que o autor passasse a ser conhecido
mundialmente. O “Vale a pena ler de novo” desta semana traz um trecho de “Juliet
Nua e Crua”, lançado originalmente no ano passado e que ganhou uma versão em
português pela editora Rocco recentemente. Leia livros!
Juliet
Nua e Crua
Eles haviam voado da Inglaterra até
Minneapolis para examinar um banheiro. Essa verdade simples só ocorreu a Annie
quando eles já estavam lá dentro: desconsiderando os rabiscos nas paredes,
alguns dos quais faziam uma espécie de referência à importância daquele banheiro
na história da música, o ambiente era úmido, escuro, fedorento e completamente
desinteressante. Os americanos sabiam aproveitar ao máximo seu legado, mas nem
eles tinham muito a fazer ali.
“Você está com a câmera, Annie?”, quis
saber Duncan.
“ Sim. Mas o que você quer fotografar?”
“Você sabe,
só...”
“Não.”
“Bem... o banheiro.”
“O quê, o... Como se
chamam essas coisas?”
“Os mictórios. É.”
“Você quer aparecer na
foto?”
“Fingindo que faço xixi?”
“Se você quiser.”
Duncan
se postou diante dos três mictórios, com as mãos colocadas convincentemente à
frente, e sorriu para Annie por cima do ombro.
“Pegou bem?”
“Não
sei se o flash funcionou.”
“Mais uma. Bobagem vir até aqui e não
conseguir uma boa foto.”
Desta vez Duncan entrou em um dos reservados,
deixando a porta aberta. Por alguma razão, a luz ali era melhor. A foto tirada
por Annie, de um homem num banheiro, ficou tão boa quanto seria razoável
esperar. Quando Duncan saiu, ela notou que o banheiro, como quase todos que já
vira em boates de rock, estava entupido.
“Vamos embora”, disse Annie.
“Ele nem queria que eu entrasse aqui.”
Isso era verdade. No princípio, o
cara atrás do balcão suspeitara que eles procuravam um lugar onde pudessem tomar
um pico, ou talvez fazer sexo. Finalmente, e a contragosto, decidira que eles
não eram capazes de fazer nem uma coisa nem outra.
Duncan deu uma última
olhadela e abanou a cabeça.
“Se os banheiros pudessem falar, hein?”
Annie estava feliz por aquele não poder. Duncan iria querer papear com o
banheiro a noite inteira.
A maioria das pessoas desconhece a música de
Tucker Crowe, que dirá alguns momentos sombrios de sua carreira; assim, a
história do que pode ou não ter acontecido a ele no toalete do Pits vale a pena
ser repetida aqui. Crowe fora a Minneapolis fazer um show, e aparecera no Pits
para ver uma banda local chamada Napoleon Solos, da qual ouvira falar bem.
(Alguns fãs de Crowe, Duncan incluído, possuem uma cópia do primeiro e único
disco da banda local: “The Napoleon Solos Sing Their Songs and Play Their
Guitars”.) No meio da apresentação, Tucker foi ao banheiro. Ninguém sabe o que
aconteceu lá dentro, mas quando ele saiu foi direto para o hotel e ligou para
seu empresário mandando cancelar o resto da turnê. Na manhã seguinte, começou o
que hoje podemos chamar de sua aposentadoria. Isso foi em junho de 1986. Nada
mais foi ouvido sobre ele desde então: nem novos discos, nem sessões de jazz,
nem entrevistas. Para quem adora Tucker Crowe tanto quanto Duncan e mais umas
duzentas pessoas no mundo, aquele banheiro é responsável por muita coisa. E,
como Duncan observou acertadamente, o banheiro não pode falar; por isso, os fãs
de Crowe têm de falar no lugar dele. Alguns alegam que ali Tucker viu Deus, ou
algum dos Seus representantes; outros, que ele teve uma experiência de quase
morte depois de uma overdose. Outra escola de pensadores diz que ele flagrou sua
namorada fazendo sexo com o contrabaixista, embora Annie achasse essa teoria um
pouco extravagante.
Ver uma mulher trepando com um músico num banheiro
poderia resultar em 22 anos de silêncio? Talvez pudesse. Talvez Annie
simplesmente nunca houvesse experimentado uma paixão tão intensa. Tanto faz.
Seja como for, só é preciso saber que algo profundo e transformador aconteceu no
menor cômodo de uma boate pequena.
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