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LITERATURA

Vale a pena ler de novo


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Recriação

Por Luis Fernando Verissimo

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Luis Fernando Verissimo, colunista do BOM DIA, nasceu em Porto Alegre, em 26 de setembro de 1936. É escritor, cartunista, tradutor, roteirista de televisão, autor de teatro e romancista. O “Vale a pena ler de novo” traz um texto de  “Mais Comédias para Ler na Escola” (Objetiva), continuação da série que se tornou best-seller com mais de 300  mil exemplares. Leia livros!

Recriação
Deus suspirou. Estava cansado. Há bilhões de anos, quando era mais jovem e ambicioso, a ideia de criar um universo não lhe parecera absurda. Agora se arrependia. O empreendimento fugira ao seu controle.

Não conseguia se lembrar nem de quantas luas tinha Saturno. Estava definitivamente ficando velho.

Olhou em volta da mesa de reuniões. Sua presença naquela comissão de recriação era dispensável. Como diretor presidente, tinha a última palavra, mas as decisões eram tomadas pela Sua assessoria. Aqueles jovens tecnocratas pensavam que tinham a resposta para tudo.

Queriam tornar o Seu projeto mais moderno e dinâmico. Trabalho mesmo fora o d’Ele. Criara tudo literalmente do nada. Eles nem eram nascidos. Mas paciência. Precisava acompanhar os tempos. Vetou a proposta do assessor de RP, para que todos se unissem numa oração, e mandou começarem os trabalhos. Odiava o puxa-saquismo.

“Quanto tempo levará a recriação?”, perguntou. “Bem...” O coordenador hesitou. O Velho, como sempre, queria respostas simples e diretas. Com Ele era tudo luz, luz, trevas, trevas. Mas as coisas não eram mais tão simples. O diretor da divisão de obras interveio: “Precisamos fazer uma análise de custos. Depois, um organograma. Um fluxograma. Um...” “Eu fiz tudo em seis dias”, interrompeu o diretor presidente.

“E sozinho. Só descansei no domingo. No meu tempo não existia semana inglesa.” Lá vinha o Velho outra vez com suas reminiscências. Está bem, ninguém negava o Seu valor.

Mas o tempo dos pioneiros já passara. Agora era o tempo dos técnicos. Dos especialistas.

“Acho que devíamos começar fechando a Terra”, disse o diretor financeiro. Aquele era um assunto delicado. O Velho tinha uma predileção especial pela Terra. Inclusive por questões familiares. Mas Ele ficou em silêncio. O diretor financeiro continuou: “Acho que a Terra já deu o que tinha que dar. Seus recursos estão esgotados. Não é mais rentável. Não há como recuperá-la. Devemos fechá-la antes que comprometa todo o grupo.” “Você quer dizer simplesmente liquidá-la?”

“Isso. Nosso representante lá, o papa, receberia uma indenização. Mas não vejo problemas maiores. E teríamos o que descontar do Imposto de Renda.”

O assessor de RP mostrou alguma preocupação.

“Em termos de imagem, pegaria mal.” “Por quê?”, perguntou o diretor de pesquisa. “Já eliminamos milhões de outros planetas, alguns bem maiores do que a Terra. Não passa um dia em que não explodimos uma estrela”. “Sei não, sei não...”

“Administrar um universo é um processo aético, meu caro. Temos um projeto a cumprir, metas a serem alcançadas. Não podemos ficar nos preocupando com cada planetinha...” “O problema foi o tipo de colonização escolhido para a Terra...”, arriscou o diretor financeiro, olhando com o rabo dos olhos para o Velho.

“Desde o começo, com aquele casal, já dava para ver que não daria certo...” “Quem sabe”, sugeriu o assessor de RP, “se refaz a Terra em outros moldes, mais empresariais? Dias mais longos, para aumentar a produtividade. Uma nova injeção de petróleo, para melhorar sua vida útil.”

“Esqueça”, disse o diretor financeiro. “A Terra não tem mais volta. Foi muito mal administrada. Está falida. Só estaríamos prolongando a sua agonia, com subsídios. Proponho o fechamento.”

A proposta foi aprovada por maioria. Passaram a discutir o formato que teria o novo universo.

A ideia era aumentar a centralização, acabar com a expansão constante para facilitar a administração e cortar os custos de manutenção...

Na cabeceira da mesa, o Velho parecia dormir.

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