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LITERATURA

Vale a pena ler de novo


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Acima da lei, embaixo dos colchões de mola

Woody Allen

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Allan Stewart Königsberg (Nova Iorque, 1º de dezembro de 1935) é um cineasta, roteirista, escritor, ator e músico norte-americano, mais conhecido pelo pseudônimo de Woody Allen. Muitos de seus filmes falam sobre neuroses comportamentais do dia-a-dia, sempre com uma crítica mordaz e sutil em longos diálogos analíticos. “O Vale a pena ler de novo” traz hoje a primeira parte de um texto extraído do livro “Fora de Órbita”, lançado pela editora Agir e originalmente publicado na revista “The New Yorker”. Leia livros!

Divulgação

Allan Stewart Königsberg, mais conhecido como Woody Allen 
Riacho Wilton situa-se no Centro das Grandes Planícies, ao norte Pico Inflacionário, à esquerda da Curva de Gauss e logo depois dos penhascos que formam a constante de Planck.

A terra é arável e fica sobretudo no solo. Uma vez por ano, os ventos fortes que descem de Kinna Hurrah irrompem pelos campos abertos, erguem no ar os lavradores, afastam-nos de seu trabalho a os depositam a centenas de quilômetros ao sul, onde muitas vezes eles reconstroem sua vida e abrem butiques. Numa cinzenta manhã de terça-feira, em junho, Consolação Consuelo, a empregada da família Washburn, entrou na casa dos Washburn, como fazia todos os dias já havia dezessete anos. O fato de ter sido despedida nove antes não a impedia de vir fazer a faxina, e os Washburn tinham por ela mais apreço do que nunca, desde que interromperam o pagamento dos seus honorários. Antes de trabalhar para os Washburn, Consolação era uma dessas adestradoras e cavalos modernas, que falam com os animais, num rancho do Texas, mas sofreu um colapso nervoso quando um cavalo também falou com ela.

“O que mais me espantou – recorda a adestradora – foi que ele sabia o número da minha inscrição na Previdência Social.”

Quando Consolação Consuelo entrou na sala dos Washburn naquela terça-feira, a família estava de férias, em viagem. (Embarcam como clandestinos num navio de cruzeiro rumo às ilhas gregas, e, embora tenham se escondido dentro de barris e ficado sem comer nem beber durante três semanas, os Washburn conseguiam esgueirar-se para o tombadilho às três da madrugada todas as noites para jogar Shuffleboard.) Consolação foi para o primeiro andar para trocar uma lâmpada.

“A senhora Washburn gostava de trocar as lâmpadas toda terça-feira, estivessem queimadas ou não”, explicou a mulher. “Ela adorava lâmpadas novas. As roupas de cama e mesa, a gente lavava uma vez por ano.”

No instante em que a empregada entrou no quarto dos patrões, percebeu que alguma coisa estava fora do lugar. E então ela viu – não conseguia acreditar em seus olhos! Alguém se pusera sobre o colchão e tinha arrancado a etiqueta que dizia: “É uma infração à lei arrancar esta etiqueta, exceto no caso de ser o seu usuário.” Consolação estremeceu. Suas pernas arquearam-se e ela sentiu-se mal. Algo lhe disse para dar uma olhada no quarto das crianças, e, sem dúvida, lá também as etiquetas tinham sido retiradas dos colchões. Então o seu sangue gelou, quando viu uma grande sombra crescer na parede, de modo agourento. Seu coração martelou e ela teve vontade de gritar. Em seguida reconheceu que a sombra era sua e, após resolver que devia fazer uma dieta, ligou para a polícia.

“Nunca vi nada assim”, disse o delegado Homero Argh. “Coisas desse tipo simplesmente não combinam com Riacho Wilton. Claro, uma vez alguém arrombou a padaria e chupou a galéia dos pães doces, mas na terceira vez que isso aconteceu nós tínhamos atiradores de tocaia no telhado e o alvejamos em flagrante.”

“Por quê? Por quê?”, soluçou Grace Mata, uma vizinha dos Washburn. “Tão sem sentido, tão cruel. Que tipo de mundo é este em que estamos vivendo, onde outra pessoa que não o próprio usuário retira as etiquetas dos colchões?”

“Até algum tempo – disse Maude Parkinson, professora do vilarejo –, quando eu saía, sempre podia deixar meus colchões em casa. Agora, toda vez que saio de casa para fazer compras ou para jantar tenho que levar os meus colchões.”

À meia-noite, na estrada que ia para Amarillo, no Texas, duas pessoas dirigiam em alta velocidade um Ford verde com placas falsas que vistas de longe pareciam autênticas, mas quando examinadas de perto revelavam nitidamente que eram feitas de marzipã. O motorista tinha uma tatuagem no antebraço direito, que dizia: “Paz, Amor, Decência”. Quando a gente levantava a manga esquerda, aparecia outra tatuagem: “Errata – Desconsidere o meu antebraço direito”.
A seu lado estava uma jovem loura que podia ser considerada linda, se não fosse incrivelmente parecida com Abe Vigoda. O motorista, Beau Cotocos, tinha fugido pouco antes de San Quentin, onde fora preso por desordem. Cotocos foi condenado por jogar papel de chocolate na calçada, e o juiz, alegando que ele não demonstrou nenhum remorso, sentenciou-o a duas penas consecutivas de prisão perpétua.

 A mulher, Eva Dias, tinha sido casada com um agente funerário e trabalhava com ele. Cotocos entrou um dia no salão de funeral deles, só para passear. Tomado de amores, tentou enganar um papo sedutor com a jovem, mas ela estava muito ocupada cremando alguém. Em pouco tempo, Cotocos e Eva Dias começaram a ter um caso secreto, se bem que ela logo descobriu o que estava acontecendo. Seu marido, o agente funerário Ben Terra, gostava de Cotocos e se ofereceu para enterrá-lo gratuitamente se ele concordasse em fazer isso naquele mesmo dia. Cotocos nocauteou-o e fugiu com a mulher dele, mas não sem antes deixar uma boneca inflável no lugar. Certa noite, após os três anos mais felizes da vida de Bem Terra, ele começou a desconfiar de alguma coisa quando pediu à mulher mais um pedaço de galinha e ela de repente deu um estouro e saiu voando pela sala em círculos cada vez menores, até pousar no tapete.

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