Antônio Prata
Antonio Prata (24/8/1977) é paulista e
tem os seguintes livros publicados: “Cabras, Caderno de Viagem”, com Paulo
Werneck, Chico Matoso e Zé Vicente da Veiga, “Douglas e outras Histórias”, “As
Pernas da Tia Corália”, “Estive Pensando” e “O Inferno Atrás da Pia”. O escritor
Fernando Morais fez a seguinte declaração sobre “Douglas e Outras Histórias”:
"... Seria um livro de contos? De ensaios? De reflexões sobre o mundo? Não sei
dizer. O que eu sei é que é um dos mais espirituosos e divertidos livros que li
nos últimos tempos. Não me pejo, assim, de valer-me da fantasia de Ruy Castro:
‘Pela qualidade do texto, fica dispensado o teste do DNA: Antonio é mesmo filho
de Marta Góes e de Mario Prata’". O “Vale a pena ler de novo” republica hoje um
texto que está em “Douglas e Outras Histórias”, Azougue Editora. Leia
livros!
Privada 1: o Homem e sua Obra
O homem
é o novo rico da natureza. Assim que nos demos conta de que éramos os únicos na
vizinhança que falávamos, fazíamos as quatro operações e conseguíamos encostar o
dedão no mindinho, ficamos profundamente, irremediavelmente bestas. Cobrimos a
pele com panos, penteamos o cabelo pra trás, passamos uma salivinha na
sobrancelha, dissemos: adeus, bicho! e saímos da selva.
Nem mal deixamos
o bosque, passamos a esnobá-lo e a condenar as atitudes de todos os seus
habitantes. Nós éramos superiores! Nós dominávamos a natureza! Nós usávamos
ferramentas, meias e fio dental!
Novo rico que se preze, no entanto, dá
bandeira. Há sempre um douradinho além da conta, um sotaque suburbano escapando
num momento de exaltação, um conversível rosa com a placa mom ou dad. Com a
humanidade também é assim. Por mais que consigamos trocar nossos odores naturais
por mentol, eucalipto ou tutti-frutti, gastemos um bilhão de dólares em pesquisa
para criar lâminas capazes de raspar perfeitamente nossos pêlos e cubramos toda
a crosta da terra com asfalto e carpete sintético, um ato sempre nos denunciará
o passado selvagem, a natureza animal: a cagada. Ali não tem desculpa, não tem
disfarce.
A merda é nossa ligação perene com a floresta, com o barro de
onde viemos. Aí não tem talher nem tailleur nenhum que nos diferencie da arara
ou do tamanduá. Nus como as trutas, acocorados como os cães, expelimos a verdade
universal, fisiológica, cilíndrica e obscura que por tanto tempo tentamos
ocultar. Somos animais!
Temendo uma reflexão mais elaborada sobre o
assunto, e sabendo das conseqüências que tamanha verdade traria uma vez
revelada, desde cedo cuidamos de camuflar o assunto. Fizemos com a bosta o que
fazemos com as putas, as drogas e tudo aquilo que é necessário existir, mas não
é preciso divulgar; marginalizamo-la. Condenamos as fezes ao
ostracismo.
No início, enquanto vagávamos nômades, a coisa era bem fácil.
O sujeito simplesmente se afastava um pouco da horda, fazia o que tinha de fazer
e ia embora, deixando as sujeiras para trás. Estávamos literalmente cagando e
andando.
Quando os primeiros povos dominaram as técnicas de irrigação e,
portanto, a agricultura, passaram a viver fixos num determinado local, e defecar
ficou um pouquinho mais complicado. O sujeito tinha que sair da aldeia, andar um
pouco, achar uma moita, cavar um buraco, fazer e enterrar. Durante muito tempo a
coisa rolou assim, trabalhosa, mas sem maiores problemas.
Foi o
crescimento da população e das aldeias que começou a complicar o processo. A
moitinha ia ficando cada vez mais longe de casa, corria-se sempre o risco de se
encontrar um conhecido por lá e, pior de tudo, cavar um buraco de segunda
mão.
Dizem que foi um bretão chamado Walter Collins que teve a brilhante
idéia: cavar um buraco bem fundo no quintal de casa e cercá-lo por paredes. Em
pouco tempo a invenção de Walter, assim como suas iniciais, já podiam ser vistas
em grande parte do mundo. Parecia que o problema havia sido solucionado. Mas
veio a revolução industrial, o grande êxodo para as cidades e os quintais, como
se sabe, foram pra cucuia.
Talvez tenha sido esse o momento mais difícil
da humanidade frente aos seus excrementos, o clímax entre o Homem e sua sombra
animal. Tivemos que trazer a bosta para dentro de nosso próprio lar. Para que
isso fosse possível, bastava que jamais assumíssemos o verdadeiro fim do
aposento que covardemente, eufemisticamente, chamamos de banheiro. Sim, meus
caros, para não dar nas vistas, inventamos o chuveiro, a banheira, a higiene
bucal, o secador de cabelo, o rímel, o blush e o batom, a acne e os tratamentos
antiacne e todas as outras coisas para se fazer ali. Além disso, criou-se um
arsenal para se disfarçar o cocô: sprays com odor de rosas, sachês que deixam a
água da privada azul, verde ou rosa, exaustores, bidês e papeis higiênicos
perfumados.
Ali, naquele ambiente cientificamente controlado, podemos
aliviar as nossas necessidades com o máximo distanciamento possível. Após dar a
descarga, nosso cocô é mandado para esgotos submersos, que desembocam em rios
que vão dar lá longe no oceano. Sanamos o problema por enquanto, mas é só uma
questão de tempo.
Todo esse cocô está se unindo, formando o maior
movimento underground do mundo. Nossas cidades, nossos países estão boiando
sobre rios de merda. Fala-se muito no fim do petróleo e no fim da água, mas não
será assim que nós morreremos. Numa incerta manhã um cidadão dará a descarga e,
como na piada, ouvirá o estrondo: o subsolo, entupido, explodirá. A verdade,
reprimida por séculos e séculos, emergirá. Só nesse dia todos perceberão o
tamanho da cagada em que nos metemos desde o dia em que resolvemos sair da
floresta. E não haverá sachê nem bom ar que dê jeito. Como se sabe, só as
baratas sobreviverão.
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