Iberê Camargo: Origem e Destino
Em sua última
entrevista, concedida poucos dias antes de falecer, Iberê Camargo brinca ao
afirmar que iria para o inferno: “E lá estará o diabo para me receber. Ele vai
me mandar sentar num banco vermelho, queimando em brasa, soltando labaredas, e
então vai abrir uma grande cortina atrás da qual vai estar tudo o que eu fiz na
vida, de certo e de errado. E eu vou saltar do banco e gritar: tinta, tinta,
tinta, por favor, quero retocar algumas coisas”. Além de mostrar o notório senso
de humor e a sabedoria do artista, essa anedota toca em duas questões para
compreendermos a obra de Iberê Camargo: o sentido profundamente moral de seu
comprometimento com a arte e o caráter infinito e aberto de suas realizações
plásticas.
Para um artista que nasceu no interior do Rio Grande do Sul,
em uma família sem nenhuma tradição intelectual ou artística, tornar-se pintor
era uma atitude que já comportava muita solidão, circunspecção e vontade. Mas a
essa determinação Iberê veio sobrepor um compromisso radical mesmo. Tudo
funcionava como um embate desproporcional entre o homem provinciano, marcado
pela paisagem simples do Sul, e uma concepção hiperbólica de arte, que no lugar
de promessas felizes apenas lhe oferecia uma dúvida lancinante. Mesmo ao final
da vida, quando o artista poderia, se quisesse, repousar na certeza de suas
realizações e acreditar nos elogios praticamente unânimes a sua obra, sustenta
essa dúvida primordial sobre o seu destino artístico. Há sempre algo que escapa
de suas obras e que desloca a ideia de arte para o futuro.
Talvez por
isso Iberê tivesse enfatizado, em tantas entrevistas e depoimentos, que, para
ele, um quadro pronto não servia para nada além de lhe fornecer os meios para
continuar pintando e apontar os problemas da obra seguinte. Chegou mesmo a
falar, ainda no início de sua carreira, que se pudesse alugaria um ateliê novo
só para deixar para trás os quadros já realizados, que virava para a parede como
se estivessem de castigo: “Eles me penetram com tanta intensidade que quase
sinto ter que repartir com eles o ar que meio respiro nesse quadrado povoado de
imagens”. Evidentemente isso não significava indiferença com sua própria obra.
Muito pelo contrário. Os quadros permaneciam vivos e desafiando o artista com
sua transitoriedade e insuficiência, pois os problemas que levantavam exigiam
novas obras que, por sua vez, levantariam novas questões e requisitariam novas
realizações.
Todo esse processo infinito se apóia na ideia de arte como
uma linguagem autônoma, uma forma de ação e pensamento que nasce de si mesma,
dos próprios problemas que engendra em seu fazer-se. Assim, precede e supera o
próprio artista que a realiza, embora, como linguagem, precise de alguém que a
pronuncie. Este alguém, de sua parte, carece ter o que dizer, sem o que não
conseguirá produzir nada além de língua morta. O resultado só pode ser, então, a
dúvida incomensurável: ao artista cabe perseguir um ideal, buscando a sua
realização absoluta em cada obra particular. Não cansava de repetir que a
arte só existe como forma, mas que esta, por ter sido criada pelo homem, é
concreta. Logo, “pode ser palpada pelo olho da percepção estética no acervo da
arte, que é também a história do homem. Existe como forma absoluta porque não
pode ser aumentada: a expressão não pode tornar-se mais expressiva, como a vida
não pode se tornar mais vida”.
Portanto, a arte atinge o absoluto
enquanto for o máximo de forma, o máximo de expressão. Poderíamos achar, a
princípio, que esta seria uma maneira de diminuir as coisas, de desonerar o
artista de sua obrigação com o absoluto. Mas a anedota do inferno não nos deixa
pensar assim. O artista precisa conviver com esse julgamento implacável, com
esse equivalente do juízo final: terá realizado o seu máximo? Sentado
permanentemente sobre o banco escaldante, precisa avaliar a cada instante se
cumpriu ou não o seu destino. E é ainda Iberê quem reflete sobre essa tarefa
gigantesca: “Que responsabilidade têm os vivos, hein, tchê? [...] nós os vivos
somos resultado de uma evolução de milhões e milhões de anos. Temos a obrigação
de corresponder a esta situação privilegiada. Não podemos nos perder em
distrações”.
Iberê Camargo não se perde em distrações. Dedica-se à
tarefa da arte.
Visitou os museus europeus, copiou obras na tentativa de
compreender os problemas plásticos que colocavam, passou dias fechado em seu
ateliê até resolver alguma questão proposta por seu trabalho, entregou-se
plenamente ao destino da arte. E o fez com ardor, rigor e volúpia, ciente de que
“o sujeito vive e não passa a vida a limpo”.
Vera Beatriz
Siqueira
A professora de história da arte do Instituto de Artes da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Vera Beatriz Siqueira, percorre em
“Iberê Camargo: Origem e Destino” (Cosac Naify, 112 páginas, R$ 29), as fases do
artista gaúcho que o transformaram num dos mais importantes da pintura
brasileira. Vera é autora dos livros “Burle Marx” (Cosac Naify, 2001 e
2009), “Milton Dacosta” (Silvia Roesler Edições, 2004), “Futuro de passado:
espaços públicos numa sociedade dividida” (Lisboa, Universidade Lusíada,
2003), além de ter assinado textos em diversos catálogos e publicações. O
“Vale a pena ler de novo” de hoje traz um trecho da obra publicada pela Cosac
Naify em parceria com a Fundação Iberê Camargo. Leia livros!
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